Profundamente (Manuel Bandeira)

Vista aérea do cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus
Foto: Michael Dantas/AFP


Quando ontem adormeci

Na noite de São João

Havia alegria e rumor

Estrondos de bombas luzes de Bengala

Vozes, cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.


No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balões

Passavam, errantes


Silenciosamente

Apenas de vez em quando

O ruído de um bonde

Cortava o silêncio

Como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?


— Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente.


Quando eu tinha seis anos

Não pude ver o fim da festa de São João

Porque adormeci


Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo

Minha avó

Meu avô

Totônio Rodrigues

Tomásia

Rosa

Onde estão todos eles?


— Estão todos dormindo

Estão todos deitados

Dormindo

Profundamente.



In "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001.

Traduzir-se (Ferreira Gullar)

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir
uma parte na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

(Ferreira Gullar)

Bruxo do Cosme Velho

Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade.
Imagens: Wikipedia.

Machado de Assis morou durante muitos anos na casa nº 18 da rua Cosme Velho, no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro. Lá morreu em 1908 aos 69 anos, quase 4 anos após a morte de sua esposa Carolina Augusta de Novais.

O escritor ganhou o apelido "Bruxo do Cosme Velho " e este tornou-se sinônimo de seu nome em artigos em jornais, revistas e publicações acadêmicas. Ganhando mais força no meio literário quando Carlos Drummond de Andrade publicou um poema em sua homenagem “A um bruxo, com amor”. O poema foi publicado em 1958 no “Correio da Manhã”, confira abaixo um trecho do poema de Drummond dedicado a Machado de Assis.

A um bruxo, com amor


Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

[...]


Ao longo de sua carreira Drummond foi também um critico de Machado de Assis vindo a se retratando mais tarde. Aos 22 anos, considerava Machado de Assis um “entrave à obra de renovação da cultura geral” a ser repudiado, fato registrado com a publicação do seu artigo “Sobre a tradição em literatura”.

Os escritores do período modernista procuravam uma renovação literária e confrontar com Machado de Assis era um peso insuportável. O livro recém-publicado e organizado pelo Professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), Hélio de Seixas Guimarães, demonstra as mudanças e transformações de Drummond até a sua famosa retratação:

“Amor nenhum dispensa uma gota de ácido”



Machado de Assis foi tema de inúmeros textos de Drummond ao longo das décadas que separam as posições contrárias do artigo crítico da homenagem em seu poema. O livro do professor Hélio Guimarães reúne esses escritos e retraça o percurso da compreensão profunda do escritor mais velho pelo mais novo. Guimarães é também autor de outros livros sobre Machado de Assis. Na entrevista a seguir ele fala sobre seu livro "Machado de Assis o escritor que nos lê".




Referencias


Livro: Amor Nenhum Dispensa Uma Gota De Ácido por Carlos Drummond De Andrade (Autor),
Hélio de Seixas Guimarães (Editor)


Amor e ódio: como Drummond mudou de opinião sobre Machado de Assis
https://oglobo.globo.com/cultura/livros/amor-odio-como-drummond-mudou-de-opiniao-sobre-machado-de-assis-23677990



5 Séculos de Sonetos Portugueses

Terminei finalmente o desafio Mulheres na Academia Brasileira de Letras (ABL), relembrem aqui o Desafio. Numa breve retrospectiva, ao todo, 288 intelectuais já foram consagrados como imortais da ABL, desses apenas 8 são mulheres. A primeira foi Rachel de Queiroz em 1977, seguida por Dinah Silveira de Queiroz em 1980, a terceira foi Lygia Fagundes Telles em 1985, Nélida Piñon em 1989, Zélia Gattai em 2001, Ana Maria Machado em 2003, Cleonice Berardinelli, em 2009 e por fim, Rosiska Darcy, em 2013.


O livro escolhido para cumprir a última etapa do desafio foi Cinco Séculos de Sonetos Portugueses da escritora Cleonice Berardinelli (102 anos!!). A obra reúne antologia de poemas e coletânea de ensaios escritos ao longo de décadas. Nas palavras da escritora portuguesa Sophia Andresen, uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX, Cleonice pode ser descrita com alguém
 que procura tornar mais clara a cidade dos homens
Sophia Andresen faz parte da lista de poetas selecionados para o livro Cinco Séculos de Sonetos Portugueses. Cleonice descreve neste como teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a escritora em 1966, período em que Cleonice lecionava na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Cleonice Berardinelli.
Imagem: oglobo.
Para conhecer um pouco mais a escritora assista ao documentário O vento lá fora dirigido por Marcio Debellian. O documentário apresenta um retrato do poeta Fernando Pessoa a partir da leitura de poemas criado pela professora Cleonice Berardinelli e pela cantora Maria Bethânia. Confira   o Trailer do Filme a seguir:



Espero que tenham gostado do desafio. Pretendo continuar a conhecer outras obras das autoras imortalizadas pela ABL e também de muitas outras escritoras brilhantes que não foram escolhidas, o que certamente não ocorreu por falta de mérito.



TIRANIAS

antigamente
diziam: cuidado,
as paredes têm ouvidos

então
falávamos baixo
nos policiávamos

hoje
as coisas mudaram
os ouvidos têm paredes

de nada
adianta
gritar

(Ruy Proença)

Poema extraído do livro Visão do térreo de Ruy Proença. São Paulo: Editora 34, 2007.