25 de jul de 2015

Desafio Mulheres da ABL : Rachel de Queiroz

Biografia de Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz (1910 — 2003) foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras em 1977 e também a primeira mulher a receber o Prêmio Camões em 1993. Destacou-se na ficção social nordestina e uma de suas principais temáticas foi a posição da mulher na sociedade.

Aos vinte anos, publica o seu primeiro livro O Quinze (1930), romance que mostra a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria. O Quinze chamou a atenção da crítica e do público projetando Rachel de Queiroz na literatura nacional. Graciliano Ramos, após ler O quinze em 1933, confessou mais tarde:

“Durante muito tempo ficou-me a ideia idiota de que ela era homem, tão forte estava em mim o preconceito que excluía as mulheres da literatura.” 

Vinculada brevemente ao Partido Comunista, Rachel rompeu sua filiação quando a direção do Partido não aprovou os originais de seu segundo livro, João Miguel. Eles exigiam que ela reescrevesse a história com alterações do tipo "ao invés de ser o operário que matava o burguês, tinha que ser o burguês que matava o operário" entre outras [1]. Em entrevista Rachel fala sobre o rompimento, queixando-se da estreiteza mental e escravidão intelectual do partido

“essa estreiteza, essa escravidão (...) ou você era escravo deles ou eles não te admitiam”.

Com a decretação do Estado Novo em 1937, Rachel é perseguida e tem seus livros queimados em Salvador – BA. Rachel permanece detida, por três meses, na sala de cinema do quartel do Corpo de Bombeiros de Fortaleza.

Em 1957 recebe o primeiro reconhecimento por parte da Academia Brasileira de Letras, recebe o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra e vinte anos depois é eleita como membro da ABL.

Raquel de Queiroz foi favorável à deposição do presidente João Goulart em 1964. O apoio ao Golpe de 64 custou caro à escritora [2]. Em entrevistada ao programa Roda Viva em 1991, ao ser questionada pelo motivo, a escritora responde: “Eu abominava o janguismo e ainda hoje abomino o Brizola, que representa o janguismo, o Getúlio. Era uma expressão disso tudo”.

Sobre as torturas do regime militar, ela afirma “ A revolução que apoiei foi enquanto Castelo Branco era presidente [foi o primeiro presidente do regime militar instaurado pelo golpe de 1964] e ele não fez tortura nenhuma, a intenção dele era fazer eleições para um presidente civil (...) Mas ele não conseguiu. (...) Não conseguiu, ele foi praticamente deposto. Fez se aquela eleição do Costa e Silva, mas o Castelo foi praticamente deposto pelo grupo militar que era mais forte, e era o grupo reacionário do Costa e Silva. ”

Sobre a sua nomeação a membro da ABL, Rachel fala em entrevista no programa Frente a Frente porque acha que foi nomeada e sobre a pouca presença de mulheres na ABL (Confira a resposta em 22 min 40s). 

Assista à Entrevista:



Essa postagem faz parte do Desafio Mulheres na ABL em colaboração com o Blog 500 Livros.

Confira os livros que já foram lidos:

O Quinze - Rachel de Queiroz

O Baile de Máscaras - Rosiska Darcy de Oliveira

Tropical Sol da Liberdade - Ana Maria Machado


Referências

1. Entrevista Frente a Frente
2. Revista de História - Rachel de Queiroz
2. Entrevista Roda Viva R Queiroz
3. Documentário TV Camara

14 de jul de 2015

​Coração (Maria Thereza Noronha)

Imagem: Lancastria




​Morreu de faca no peito
quanto o coração só lhe falava
de amor.
A faca se abriu em chaga
vermelha e meio com jeito
de flor.


Morreu de febre no leito
quando o coração já lhe falhava
no peito.
Deixou órfãos e viúva.
Partiu num dia de chuva
sem palavras.


12 de jul de 2015

Esquadros (Adriana Calcanhoto)



Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Pra sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome

29 de jun de 2015

LEMBRANÇA DE MORRER (Álvares de Azevedo)

Lembrança de morrer
Álvares de Azevedo por Nilo

No more! O never more!
SHELLEY

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro...
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro...

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia,
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

27 de jun de 2015

Resíduo (Drummond)

Drummond e filha


De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.