20 de fev de 2017

Poemas Escolhidos (Mia Couto)

Mia Couto (ou António Emílio Leite Couto) é um biólogo, jornalista e escritor de Moçambique, membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Ele destacou-se tanto na prosa como na poesia e já coleciona uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013 e o Neustadt International Prize de 2014

Um dos juris do Prêmio Camões (Lusa J. C. Vasconcelos) justificou a escolha de Mia Couto da seguinte forma:
"Ao longo de 30 anos de publicação, ele construiu uma vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e profunda humanidade, o que tem sabido renovar na sua produção" (Lusa J. C. Vasconcelos)
O seu primeiro romance Terra sonâmbula (2007) foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri especial criado pela Feira do Livro do Zimbábue. Este já foi adicionado à minha meta de Leituras de 2017

Mia Couto ao lado de nomes como Chimamanda Adichie e Ondjaki fazem parte de uma nova geração de escritores africanos com ampla projeção internacional. Em uma entrevista à Revista de História, quando indagado sobre a recente projeção internacional da Literatura Africana ele responde:  
RH – Essa nova geração de africanos indica que o mundo está descobrindo uma literatura que antes era ignorada, ou de fato há uma geração privilegiada de grandes nomes surgindo?
Mia Couto ❝ As duas coisas. Eu acho que a primeira literatura africana era de grande qualidade, mas era uma literatura muito marcada, muito datada. Era uma literatura de afirmação, e eu acho que agora os escritores novos africanos estão mais empenhados em serem escritores, independentemente da identificação africana. Muitos moram fora da África. Como essa escritora, Chimamanda Adichie, que é para mim uma das grandes vozes da África hoje. A impressão é de que esses escritores querem ficar mais livres; proclamarem-se africanos deu-lhes mais liberdade. Por outro lado, eu acho que o resto do mundo tem se interessado mais pela África. O Brasil, por exemplo, está se reencontrando melhor com aquele seu lado africano, conhecendo o que está dentro e o que está fora do Brasil. Portanto, acho que estas são as duas coisas que estão acontecendo. ❞ 

Recentemente li o livro Poemas Escolhidos, um livro de poemas selecionados por Mia Couto. Esse foi o primeiro livro que eu li do autor, e será, certamente, o primeiro de muitos. Eu amo poesia, embora eu conheça e leia muitos outros autores, eu acabo quase sempre me apaixonando por alguns poemas e sendo indiferente aos muitos outros, lendo Mia Couto eu tive uma identificação imediata com o livro do começo ao fim, acredito que não apenas pela poesia em si, bastante sensível e humana, mas também pela sua linguagem nova, diferente do que eu estava habituada.


Mia Couto
Poemas Escolhidos - Mia Couto 

A seguir leia três poemas extraídos do livro Poemas Escolhidos: 

13 de fev de 2017

O pobre poema (Mario Quintana)

Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança
doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos seqüestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão
[tomados...
Poema, menininho condenado,
bem se via que ele não era deste mundo
nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a
[insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo
[errado?


Poema extraído do livro Baú de espantos de Mário Quintana.


Mário Quintana




Outros poemas de Mário Quintana ...

Bilhete

O Poeta

7 de fev de 2017

Dialética (Vinicius de Moraes)

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...


Vinicius de Moraes

Veja também outros poemas de Vinicius de Moraes ...

 A hora íntima 

Soneto da Fidelidade 

Aquarela

Soneto da Hora Final


2 de fev de 2017

a flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

24 de jan de 2017

Pesadelo

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

(Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro)




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Outra vez

Falando de amor

Jõao e Maria

​​​Suíte do pescador

23 de jan de 2017

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI (Eduardo Alves da Costa)

No caminho com Maiakóvski
No Caminho com Maiakóvski
(Eduardo Alves da Costa)

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.


Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

20 de jan de 2017

Ora (direis) ouvir estrelas!

Constelação em Arte Stellarium

XII

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
Saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera! que eu te sigo:
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
"Como és feliz! como és feliz, amigo,
Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"

XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

(...)