7 de jan de 2018

Traduzir-se (Ferreira Gullar)



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

25 de dez de 2017

O Enterrado Vivo

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

(Carlos Drummond de Andrade)

Estátua de Drummond no RJ. (Fonte:Wikipedia)

20 de nov de 2017

O LADO ERÓTICO DA PRODUÇÃO DE HILDA HILST

Hilda Hilst foi uma poetisa, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. A artista nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 1930, e faleceu em Campinas, aos 74 anos. Hilda é considerada, pela crítica especializada, a melhor escritora em língua portuguesa do século XX.

Nos últimos anos de sua vida, Hilda passou por dificuldade financeira. O compositor Zeca Baleiro musicou alguns de seus trabalhos e convenceu diversos artistas a gravarem em solidariedade à Hilda. Disso resultou o trabalho Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé (relembre aqui). O blog Literatura Brasileira também já publicou os belíssimos poemas de Hilda: Que este amor não me cegue e não me siga (relembre aqui) e Aflição de ser eu e não ser outra (relembre aqui).

Hilda Hilst também deixou trabalhos que chocaram o público da época devido ao seu apelo erótico (por exemplo, A Obscena Senhora D). Com frases provocativas e marcantes, como: “Que amor é esse que empurra a cabeça do outro na privada e deixa a salvo pela eternidade sua própria cabeça?”.

Lendo a Revista de História da Biblioteca Nacional, número 99, encontrei a transcrição de um texto erótico atribuído a Hilda Hilst e comentado pelo professor Alcir Péroca. Compartilho o texto na íntegra:

Isabô: Ai, Berta, tô mar... tive uns presságio...Vi uma véia tão véia coçando oiti na esquina.
Berta: Iii, Isabô, essas coisas de coçá o oiti se chama prurido senir... daqui pra poco nóis tá iguarzinha. Te lembra do tio Ledisberto? Mandava a Eufrasina fica fazendo cafuné nos cabinho do cu dele.
Isabô: Credo, Vige Maria, Berta! Meu tio, hein,... imagine...gente de bem. Tu é que coçava os bagos dos menininho e tirava os ranho dos buracos do nariz e enfiava na boca da Dita, coitadinha, aquele neguinha fedida que era tua prima.
Berta: Iii, Isabô, tu tá tão porca que tá parecendo aquela véinha curta da Hirda, como é que é mesmo?, a Hirste.
Isabô: Iii, essa véia é safada. Porca, porca, mesmo curta. Imagine só que gente mora nesse país.
Berta: Até o presidente, que tem curtura mesmo, dá dedo, assim ó, e diz que tem os cuião roxo.
Isabô: Berta, eu adoro roxo. Te lembra do Zequinha? Menina, que home. Quando ele metia, eu via tudo roxo, lilás, bordô.
Isabô: Bordô o que qui é, hein Berta? É cor de jaboticaba, é?
Berta: Tu é ignorante, imagine, bordô é... Ah, num sei explicá, é uma cor muito bonita.
Isabô: É cor de xereca de vaca?
Berta: Ih..., boba, xereca de vaca é vermeia.
Isabô: Tá mais pra cu de boi?
Berta: Tu só pensa nas partes de baixo. Bordô é a cor dos óio da Zezé Cabrita.
Isabô: ... num me fala nela, ela me tirô o Tonho de mim.
Berta: Bordô é cor bonita. Tudo que é bonito é bordô.          
Batem na porta. É Seo Quietinho.
Berta: Quem é, meu deus? (Olha pela janela) Ai, Vige Maria, é o Quietinho, tá loco pra fazê aquelas coisas com a gente.
Isabô: Que coisa tu qué dizê, hein?
Berta: Aquilo que tu fazia com o Tonho.
Isabô: Mardita! Num faço isso há mais de trinta ano.
Batem outra vez.
Seo Quietinho: Ô de casa! Tu tá aí, Berta? Tu tá aí, Isabô?
Berta: Tamo não, Quietinho. Hoje num é dia. Numa é dia de nada.
Seo Quietinho: Por quê?
Isabô: É dia de Santa Apolônia que protege os dente.
Seo Quietinho: Mas eu vim aqui pra isso mesmo, pois vocês num têm dente... é pra chupá mió.
Berta: Aiiiiii, num fala assim nas porta da rua!
Isabô: Abre logo, que a vila intera vai sabê dessas luxúria.
Abrem. Entra Quietinho.
Seo Quietinho: Óia cumé qui eu já tô.
Berta: Hoje num quero. Acabei de bochechá.
Isabô: Ah..., eu quero. Óia como eu tô arrepiada.

O comentarista Alcir Pécora é professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e organizador das obras completas de Hilda Hilst. Ele não duvida que o texto seja autêntico. Segundo o professor, era comum que Hilda escrevesse pequenos textos assim, quando recebia visitas e pedisse ajuda e sugestão das visitas, desse modo, ela entretinha todos os convidados com risos e gargalhadas. Ela também costumava dizer que o sexo oral perfeito só poderia ser feito por uma mulher sem dentes (ou seja, ela estava militando em causa própria).

Alcir também destaca o lado político do texto (o presidente do “cuião roxo” era Fernando Collor de Mello) e a denúncia a hipocrisia social (da porta para fora, ninguém pode ficar sabendo, mas dá porta para dentro, está tudo bem).


O aspecto mais revelador do texto, segundo Alcir, é o nome das protagonistas (Berta e Isabô). Elas podem vir de dois clássicos romances góticos ingleses. Isabô pode ser uma alusão à Isabella Liton de O morro dos ventos uivantes (1847) de Emily Brontë e Berta pode vir de Bertha Manson, personagem do livro Jane Eyre (1847) de Charlotte Brontë (irmã de Emily). Duas personagens estranhas ao encontro do verdadeiro amor. 

O único quadro das três irmãs Brontë (as escritoras Charlotte, Emily e Anne) que não é alvo de disputas judiciais. Pintado por seu irmão Brandwell Brontë em 1834.
Nas palavras de Pécora:
Pode-se argumentar, com razão, que disso não se ri. E está aí justamente o segredo da graça que se explora no trecho: aplicar os nomes dessas personagens de romances góticos, usualmente pensados como românticos, misteriosos e sofisticados, à dupla de roceiras maledicentes e sem atrativos. O violento contraponto dos registros produz o ridículo e o cômico da incongruência.

O que vocês acharam do texto?

(Este texto é de autoria e responsabilidade do blog 600livros)

2 de ago de 2017

Hibisco Roxo


Capa do livro "Hibisco Roxo" @Companhia das Letras
Hibisco Roxo é o primeiro romance da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. [1] Violência doméstica é o tema central da obra. A história é narrada pela adolescente Kambili, que junto a seu irmão e sua mãe sofrem por conta do fanatismo religioso e violência por parte do seu pai Eugene.
   

A forma como a escritora trata a dependência emocional das vítimas numa relação de violência doméstica é muito realista e acredito que esse tipo de leitura pode fazer com que as pessoas tenham mais empatia e conhecimento sobre relacionamentos abusivos. Tomar conhecimento dessa dependência explica uma recente alteração na Lei Maria da Penha, agora a denúncia de terceiros é o suficiente para abrir uma ação contra um agressor [2]. Antes, para abrir a ação contra um agressor, era necessária a denúncia da vítima. Se ela fosse agredida, mas não denunciar o companheiro, nada poderia ser feito. E ainda havia a possibilidade de a mulher retirar a queixa diante das pressões do agressor. Esse foi um grande passo na nossa legislação para o enfrentamento da violência doméstica. É preciso entender a complexidade das relações de abuso.


Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação (tortura, etc), passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor. [3]


Certamente a maioria das pessoas é bem familiar a esse distúrbio e deve passar por calafrios imaginando a dor que alguém possa ter passado até chegar a esse estado. Vítimas de violência doméstica chegam a esse estado muitas vezes, mas as pessoas já não parecem ter tanta empatia assim nesses casos. E essa falta de empatia se expressa quando dizem coisas do tipo:


❝ Mulher que apanha do marido e não larga dele é porque gosta de apanhar ❞  ou
❝porque não larga ele? porque se submete a isso❞  


A culpa é transferida para a vítima, a empatia some quando se trata de violência doméstica. Essas pessoas ignoram a dependência emocional e o medo da vítima. Um medo muito justificado, já que a maioria dos assassinatos das mulheres vítimas de violência doméstica ocorrem no momento que elas decidem dar um basta na relação. Isso sem contar com a dependência financeira, algo que se torna ainda mais crítico quando o casal tem filhos.


A seguir uma palestra sobre violência doméstica de Leslie Steiner ao TED [4]. A palestra é muito esclarecedora sobre toda a complexidade das relações abusivas e o porquê é tão difícil sair de uma relação de abuso. Leslie Steiner esteve em um relacionamento com um homem que constantemente a agredia e ameaçava sua vida. Nesta palestra fala sobre o seu relacionamento e corrige más interpretações que muitas pessoas têm a respeito das vítimas de violência doméstica.

Leslie Morgan - Por que as vítimas de violência doméstica não vão embora?




Assista com legenda em português  aqui Leslie-TED


Mais sobre o tema ...

1. Hibisco Roxo


2. Lei Maria da Penha vale mesmo sem a denúncia da vítima


3. Sindrome de Estocolmo


4. TED - Violência Doméstica - Leslie Steiner



18 de abr de 2017

Mentiras (Adriana Calcanhoto)





Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua família

Eu vou escrever no seu muro
E violentar o seu rosto
Eu quero roubar no seu jogo
Eu já arranhei os seus discos

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim