15 de abr de 2018

Maria Carolina e Machado de Assis

As Mulheres na vida de grandes escritores


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) talvez seja o mais reconhecido e renomado dos escritores brasileiros. Ele era afro-descendente dentro de uma sociedade racista e elitista, mas conseguiu se sobressair com seu talento extraordinário. E também com o apoio de muitas outras pessoas ao longo de toda sua vida. 1

Entre elas, destaca-se a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, sua companheira e esposa por toda vida. Dizem que quando eles se conheceram, foi amor à primeira vista (Quem sabe?). Carolina era uns cinco anos mais velha do que Machado e deveria ter uns 32 na época do noivado. 2 Os irmãos de Carolina, Miguel e Adelaíde não concordaram que ela se envolvesse com um “mulato”. Mesmo assim, o casamento aconteceu em 12 de novembro de 1869.

Carolina Augusta em 1890.

Numa das cartas endereçadas a sua amada, Machado de Assis diz:

“Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar.”

De fato, Carolina Augusta, ou “Carola”, como Machado de Assis a chamava, era uma mulher extremamente culta. Provavelmente foi ela quem introduziu Machado de Assis à leitura dos clássicos portugueses, espanhóis (como Dom Quixote, por exemplo) e ingleses. Lembrando que as principais obras de Machado foram todas escritas após o seu casamento: Dom Casmurro (1899), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880) e Quincas Borba (1886). O casal, assim como personagem ficcional Brás Cubas, nunca teve filhos. Mas eles tinham uma cadela, chamada Graziela. No livro Quincas Borba, o personagem também tem um cachorro chamado Quincas Borba e fala da polêmica de se dar um nome de gente para um cão (coincidência?).

A sobrinha-bisneta de Carolina, Ruth Leitão de Carvalho Lima, sua única herdeira, revelou em uma entrevista de 2008 que, frequentemente, a esposa retificava os textos do marido durante a sua ausência. Quando Carola morreu, quatro anos antes de seu marido, Machado de Assis escreveu o seguinte poema:


A Carolina
Querida! Ao pé do leito derradeiro,
em que descansas desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro...
Trago-te flores - restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados;
que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos

Muito obrigada a todos e todas que acompanham o nosso trabalho. Esta é uma humilde contribuição do blog 600 Livros ao blog Literatura-Brasileira.

BOA SEMANA!
BOAS LEITURAS!

1 Um livro que mostra bem a importância do meio e da comunidade para que algumas pessoas possam se mostrar extraordinárias é Fora de Série –Outliers do escritor canadense Gladwell Malcolm.

2 No livro Quincas Borba de Machado de Assis, escrito entre 1886 e 1991, ou seja, quando ele já era casado, existem duas personagens que desejam se casar tardiamente para os padrões da época. Talvez a construção delas se devesse a experiência da própria esposa.

20 de jan de 2018

Os Perigos da História Única

“A história única cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas sim que são incompletos. Eles fazem de uma história a única história.”

- Chimamanda Ngozi Adichie


Chimamanda Ngozi Adichie é uma proeminente escritora nigeriana. Seu primeiro romance Hibisco Roxo recebeu o Prêmio Commonwealth Writers' como Melhor Primeiro Livro (2005). O seu segundo romance Meio Sol Amarelo, foi vencedor do Orange Prize para ficções (2007). Além de escritora, Adichie também é reconhecida por sua militância  envolvendo questões raciais e de gênero.

Em 2009, ela deu uma palestra ao TED falando como ela encontrou sua autentica voz cultural e nos adverte sobre os perigos de uma única história sobre outra pessoa ou país.




Relembre aqui postagens antigas sobre a escritora:

1. Hibisco Roxo 
http://www.literatura-brasileira.com/2017/08/hibisco-roxo.html

2. Sejamos Todos Feministas 
http://500livros.blogspot.de/2015/04/sejamos-todos-feministas-de-chimamanda.html


7 de jan de 2018

Traduzir-se (Ferreira Gullar)



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

25 de dez de 2017

O Enterrado Vivo

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

(Carlos Drummond de Andrade)

Estátua de Drummond no RJ. (Fonte:Wikipedia)

20 de nov de 2017

O LADO ERÓTICO DA PRODUÇÃO DE HILDA HILST

Hilda Hilst foi uma poetisa, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. A artista nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 1930, e faleceu em Campinas, aos 74 anos. Hilda é considerada, pela crítica especializada, a melhor escritora em língua portuguesa do século XX.

Nos últimos anos de sua vida, Hilda passou por dificuldade financeira. O compositor Zeca Baleiro musicou alguns de seus trabalhos e convenceu diversos artistas a gravarem em solidariedade à Hilda. Disso resultou o trabalho Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé (relembre aqui). O blog Literatura Brasileira também já publicou os belíssimos poemas de Hilda: Que este amor não me cegue e não me siga (relembre aqui) e Aflição de ser eu e não ser outra (relembre aqui).

Hilda Hilst também deixou trabalhos que chocaram o público da época devido ao seu apelo erótico (por exemplo, A Obscena Senhora D). Com frases provocativas e marcantes, como: “Que amor é esse que empurra a cabeça do outro na privada e deixa a salvo pela eternidade sua própria cabeça?”.

Lendo a Revista de História da Biblioteca Nacional, número 99, encontrei a transcrição de um texto erótico atribuído a Hilda Hilst e comentado pelo professor Alcir Péroca. Compartilho o texto na íntegra:

Isabô: Ai, Berta, tô mar... tive uns presságio...Vi uma véia tão véia coçando oiti na esquina.
Berta: Iii, Isabô, essas coisas de coçá o oiti se chama prurido senir... daqui pra poco nóis tá iguarzinha. Te lembra do tio Ledisberto? Mandava a Eufrasina fica fazendo cafuné nos cabinho do cu dele.
Isabô: Credo, Vige Maria, Berta! Meu tio, hein,... imagine...gente de bem. Tu é que coçava os bagos dos menininho e tirava os ranho dos buracos do nariz e enfiava na boca da Dita, coitadinha, aquele neguinha fedida que era tua prima.
Berta: Iii, Isabô, tu tá tão porca que tá parecendo aquela véinha curta da Hirda, como é que é mesmo?, a Hirste.
Isabô: Iii, essa véia é safada. Porca, porca, mesmo curta. Imagine só que gente mora nesse país.
Berta: Até o presidente, que tem curtura mesmo, dá dedo, assim ó, e diz que tem os cuião roxo.
Isabô: Berta, eu adoro roxo. Te lembra do Zequinha? Menina, que home. Quando ele metia, eu via tudo roxo, lilás, bordô.
Isabô: Bordô o que qui é, hein Berta? É cor de jaboticaba, é?
Berta: Tu é ignorante, imagine, bordô é... Ah, num sei explicá, é uma cor muito bonita.
Isabô: É cor de xereca de vaca?
Berta: Ih..., boba, xereca de vaca é vermeia.
Isabô: Tá mais pra cu de boi?
Berta: Tu só pensa nas partes de baixo. Bordô é a cor dos óio da Zezé Cabrita.
Isabô: ... num me fala nela, ela me tirô o Tonho de mim.
Berta: Bordô é cor bonita. Tudo que é bonito é bordô.          
Batem na porta. É Seo Quietinho.
Berta: Quem é, meu deus? (Olha pela janela) Ai, Vige Maria, é o Quietinho, tá loco pra fazê aquelas coisas com a gente.
Isabô: Que coisa tu qué dizê, hein?
Berta: Aquilo que tu fazia com o Tonho.
Isabô: Mardita! Num faço isso há mais de trinta ano.
Batem outra vez.
Seo Quietinho: Ô de casa! Tu tá aí, Berta? Tu tá aí, Isabô?
Berta: Tamo não, Quietinho. Hoje num é dia. Numa é dia de nada.
Seo Quietinho: Por quê?
Isabô: É dia de Santa Apolônia que protege os dente.
Seo Quietinho: Mas eu vim aqui pra isso mesmo, pois vocês num têm dente... é pra chupá mió.
Berta: Aiiiiii, num fala assim nas porta da rua!
Isabô: Abre logo, que a vila intera vai sabê dessas luxúria.
Abrem. Entra Quietinho.
Seo Quietinho: Óia cumé qui eu já tô.
Berta: Hoje num quero. Acabei de bochechá.
Isabô: Ah..., eu quero. Óia como eu tô arrepiada.

O comentarista Alcir Pécora é professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e organizador das obras completas de Hilda Hilst. Ele não duvida que o texto seja autêntico. Segundo o professor, era comum que Hilda escrevesse pequenos textos assim, quando recebia visitas e pedisse ajuda e sugestão das visitas, desse modo, ela entretinha todos os convidados com risos e gargalhadas. Ela também costumava dizer que o sexo oral perfeito só poderia ser feito por uma mulher sem dentes (ou seja, ela estava militando em causa própria).

Alcir também destaca o lado político do texto (o presidente do “cuião roxo” era Fernando Collor de Mello) e a denúncia a hipocrisia social (da porta para fora, ninguém pode ficar sabendo, mas dá porta para dentro, está tudo bem).


O aspecto mais revelador do texto, segundo Alcir, é o nome das protagonistas (Berta e Isabô). Elas podem vir de dois clássicos romances góticos ingleses. Isabô pode ser uma alusão à Isabella Liton de O morro dos ventos uivantes (1847) de Emily Brontë e Berta pode vir de Bertha Manson, personagem do livro Jane Eyre (1847) de Charlotte Brontë (irmã de Emily). Duas personagens estranhas ao encontro do verdadeiro amor. 

O único quadro das três irmãs Brontë (as escritoras Charlotte, Emily e Anne) que não é alvo de disputas judiciais. Pintado por seu irmão Brandwell Brontë em 1834.
Nas palavras de Pécora:
Pode-se argumentar, com razão, que disso não se ri. E está aí justamente o segredo da graça que se explora no trecho: aplicar os nomes dessas personagens de romances góticos, usualmente pensados como românticos, misteriosos e sofisticados, à dupla de roceiras maledicentes e sem atrativos. O violento contraponto dos registros produz o ridículo e o cômico da incongruência.

O que vocês acharam do texto?

(Este texto é de autoria e responsabilidade do blog 600livros)