15 de nov de 2016

Se Eu Fosse Eu (Clarice Lispector)



A Crônica “Se Eu Fosse Eu” de Clarice Lispector foi publicada em 30 de novembro de 1968 pelo Jornal do Brasil. 



SE EU FOSSE EU

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

       E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

       Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

       “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova do desconhecimento. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

(Clarice Lispector)


O livro “A descoberta do Mundo” reúne as crônicas que Clarice Lispector escreveu para o Jornal do Brasil no período de 1967 a 1973.

4 de nov de 2016

Estado de Poesia (Chico César)



Para viver em estado de poesia
Me entranharia nestes sertões de você
Para deixar a vida que eu vivia
De cigania antes de te conhecer
De enganos livres que eu tinha porque queria
Por não saber que mais dia menos dia
Eu todo me encantaria pelo todo do seu ser

Pra misturar meia noite meio dia
E enfim saber que cantaria a cantoria
Que há tanto tempo queria
A canção do bem querer

É belo vês o amor sem anestesia
Dói de bom, arde de doce
Queima, acalma
Mata, cria
Chega tem vez que a pessoa que enamora
Se pega e chora do que ontem mesmo ria
Chega tem hora que ri de dentro pra fora
Não fica nem vai embora
É o estado de poesia

(Chico César)

25 de out de 2016

BookCrossing

BookCrossing consiste em deixar livros em locais públicos para que sejam lidos por outras pessoas que a seguir farão o mesmo ... . A ideia é tornar o mundo uma imensa biblioteca livre.

Como funciona?


Ao encontrar um livro do BookCrossing entre com o n° BCID na página www.bookcrossing.com e descubra onde o livro esteve, quem leu o livro e os outros leitores saberão que o livro passou por suas mãos e está seguindo a corrente. 





Você também pode registrar seus livros em www.bookcrossing.com, cole e etiquete com o número de identificação BCID fornecidos pelo site e liberte o seu livro em um lugar público para que outras pessoas possam ler e continuar essa aventura. Faça parte dessa experiência mista de surpresa, altruísmo e gosto pela leitura!




10 de ago de 2016

Romance em doze linhas (Bruna Beber)

quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu


Bruna Beber (foto: Reprodução Facebook)


Bruna Beber é um poetisa carioca. Publicou seu livro de estréia "a fila sem fim dos demônios descontentes" em 2006, de lá pra cá vieram Rapapés & apuposBalésRua da PadariAConheça um pouco mais sobre a escritora em sua página pessoal Avoa dinossauro ou na entrevista concedida a Fabiane Ferreira Entrevista Bruna Beber.

28 de jul de 2016

Descobrindo e Amando Nélida Piñon

Nélida Piñon é uma escritora brasileira nascida no Rio de Janeiro. Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), desde 1989, e foi a primeira (e única) mulher a presidir a instituição. Nélida escreveu diversos livros. Entre os mais consagrados estão: os romances A República dos Sonhos e Vozes no Deserto, ambos traduzidos para o inglês, a coletânea de contos O Calor das Coisas e a coletânea, quase autobiográfica, O Pão de Cada Dia – Fragmentos.
O Pão de Cada Dia é uma coleção de pequenos textos de Nélida, escritos ao longo de toda a sua vida. Esses excertos falam sobre quatro temas centrais: a família e suas origens, viagens pela Europa, a arte literária em si e seus escritores, religiosidade.
Sobre a família, logo no começo do livro descobre-se que a autora é filha de um pai da Galícia1, região da Espanha que fascina Nélida, assim como a Catalunha2. A mãe da escritora era uma mineira de São Lourenço, portanto, Nélida cresceu no meio de  culturas distintas e soube aproveitar o melhor de cada uma delas.

“Na Catalunha a viajante sente-se em casa. Cercada pelos seus cenários apaixonantes, o coração sobressalta-lhe.”