20 de nov de 2017

O LADO ERÓTICO DA PRODUÇÃO DE HILDA HILST

Hilda Hilst foi uma poetisa, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. A artista nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 1930, e faleceu em Campinas, aos 74 anos. Hilda é considerada, pela crítica especializada, a melhor escritora em língua portuguesa do século XX.

Nos últimos anos de sua vida, Hilda passou por dificuldade financeira. O compositor Zeca Baleiro musicou alguns de seus trabalhos e convenceu diversos artistas a gravarem em solidariedade à Hilda. Disso resultou o trabalho Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé (relembre aqui). O blog Literatura Brasileira também já publicou os belíssimos poemas de Hilda: Que este amor não me cegue e não me siga (relembre aqui) e Aflição de ser eu e não ser outra (relembre aqui).

Hilda Hilst também deixou trabalhos que chocaram o público da época devido ao seu apelo erótico (por exemplo, A Obscena Senhora D). Com frases provocativas e marcantes, como: “Que amor é esse que empurra a cabeça do outro na privada e deixa a salvo pela eternidade sua própria cabeça?”.

Lendo a Revista de História da Biblioteca Nacional, número 99, encontrei a transcrição de um texto erótico atribuído a Hilda Hilst e comentado pelo professor Alcir Péroca. Compartilho o texto na íntegra:

Isabô: Ai, Berta, tô mar... tive uns presságio...Vi uma véia tão véia coçando oiti na esquina.
Berta: Iii, Isabô, essas coisas de coçá o oiti se chama prurido senir... daqui pra poco nóis tá iguarzinha. Te lembra do tio Ledisberto? Mandava a Eufrasina fica fazendo cafuné nos cabinho do cu dele.
Isabô: Credo, Vige Maria, Berta! Meu tio, hein,... imagine...gente de bem. Tu é que coçava os bagos dos menininho e tirava os ranho dos buracos do nariz e enfiava na boca da Dita, coitadinha, aquele neguinha fedida que era tua prima.
Berta: Iii, Isabô, tu tá tão porca que tá parecendo aquela véinha curta da Hirda, como é que é mesmo?, a Hirste.
Isabô: Iii, essa véia é safada. Porca, porca, mesmo curta. Imagine só que gente mora nesse país.
Berta: Até o presidente, que tem curtura mesmo, dá dedo, assim ó, e diz que tem os cuião roxo.
Isabô: Berta, eu adoro roxo. Te lembra do Zequinha? Menina, que home. Quando ele metia, eu via tudo roxo, lilás, bordô.
Isabô: Bordô o que qui é, hein Berta? É cor de jaboticaba, é?
Berta: Tu é ignorante, imagine, bordô é... Ah, num sei explicá, é uma cor muito bonita.
Isabô: É cor de xereca de vaca?
Berta: Ih..., boba, xereca de vaca é vermeia.
Isabô: Tá mais pra cu de boi?
Berta: Tu só pensa nas partes de baixo. Bordô é a cor dos óio da Zezé Cabrita.
Isabô: ... num me fala nela, ela me tirô o Tonho de mim.
Berta: Bordô é cor bonita. Tudo que é bonito é bordô.          
Batem na porta. É Seo Quietinho.
Berta: Quem é, meu deus? (Olha pela janela) Ai, Vige Maria, é o Quietinho, tá loco pra fazê aquelas coisas com a gente.
Isabô: Que coisa tu qué dizê, hein?
Berta: Aquilo que tu fazia com o Tonho.
Isabô: Mardita! Num faço isso há mais de trinta ano.
Batem outra vez.
Seo Quietinho: Ô de casa! Tu tá aí, Berta? Tu tá aí, Isabô?
Berta: Tamo não, Quietinho. Hoje num é dia. Numa é dia de nada.
Seo Quietinho: Por quê?
Isabô: É dia de Santa Apolônia que protege os dente.
Seo Quietinho: Mas eu vim aqui pra isso mesmo, pois vocês num têm dente... é pra chupá mió.
Berta: Aiiiiii, num fala assim nas porta da rua!
Isabô: Abre logo, que a vila intera vai sabê dessas luxúria.
Abrem. Entra Quietinho.
Seo Quietinho: Óia cumé qui eu já tô.
Berta: Hoje num quero. Acabei de bochechá.
Isabô: Ah..., eu quero. Óia como eu tô arrepiada.

O comentarista Alcir Pécora é professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e organizador das obras completas de Hilda Hilst. Ele não duvida que o texto seja autêntico. Segundo o professor, era comum que Hilda escrevesse pequenos textos assim, quando recebia visitas e pedisse ajuda e sugestão das visitas, desse modo, ela entretinha todos os convidados com risos e gargalhadas. Ela também costumava dizer que o sexo oral perfeito só poderia ser feito por uma mulher sem dentes (ou seja, ela estava militando em causa própria).

Alcir também destaca o lado político do texto (o presidente do “cuião roxo” era Fernando Collor de Mello) e a denúncia a hipocrisia social (da porta para fora, ninguém pode ficar sabendo, mas dá porta para dentro, está tudo bem).


O aspecto mais revelador do texto, segundo Alcir, é o nome das protagonistas (Berta e Isabô). Elas podem vir de dois clássicos romances góticos ingleses. Isabô pode ser uma alusão à Isabella Liton de O morro dos ventos uivantes (1847) de Emily Brontë e Berta pode vir de Bertha Manson, personagem do livro Jane Eyre (1847) de Charlotte Brontë (irmã de Emily). Duas personagens estranhas ao encontro do verdadeiro amor. 

O único quadro das três irmãs Brontë (as escritoras Charlotte, Emily e Anne) que não é alvo de disputas judiciais. Pintado por seu irmão Brandwell Brontë em 1834.
Nas palavras de Pécora:
Pode-se argumentar, com razão, que disso não se ri. E está aí justamente o segredo da graça que se explora no trecho: aplicar os nomes dessas personagens de romances góticos, usualmente pensados como românticos, misteriosos e sofisticados, à dupla de roceiras maledicentes e sem atrativos. O violento contraponto dos registros produz o ridículo e o cômico da incongruência.

O que vocês acharam do texto?

(Este texto é de autoria e responsabilidade do blog 600livros)

2 de ago de 2017

Hibisco Roxo


Capa do livro "Hibisco Roxo" @Companhia das Letras
Hibisco Roxo é o primeiro romance da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. [1] Violência doméstica é o tema central da obra. A história é narrada pela adolescente Kambili, que junto a seu irmão e sua mãe sofrem por conta do fanatismo religioso e violência por parte do seu pai Eugene.
   

A forma como a escritora trata a dependência emocional das vítimas numa relação de violência doméstica é muito realista e acredito que esse tipo de leitura pode fazer com que as pessoas tenham mais empatia e conhecimento sobre relacionamentos abusivos. Tomar conhecimento dessa dependência explica uma recente alteração na Lei Maria da Penha, agora a denúncia de terceiros é o suficiente para abrir uma ação contra um agressor [2]. Antes, para abrir a ação contra um agressor, era necessária a denúncia da vítima. Se ela fosse agredida, mas não denunciar o companheiro, nada poderia ser feito. E ainda havia a possibilidade de a mulher retirar a queixa diante das pressões do agressor. Esse foi um grande passo na nossa legislação para o enfrentamento da violência doméstica. É preciso entender a complexidade das relações de abuso.


Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação (tortura, etc), passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor. [3]


Certamente a maioria das pessoas é bem familiar a esse distúrbio e deve passar por calafrios imaginando a dor que alguém possa ter passado até chegar a esse estado. Vítimas de violência doméstica chegam a esse estado muitas vezes, mas as pessoas já não parecem ter tanta empatia assim nesses casos. E essa falta de empatia se expressa quando dizem coisas do tipo:


❝ Mulher que apanha do marido e não larga dele é porque gosta de apanhar ❞  ou
❝porque não larga ele? porque se submete a isso❞  


A culpa é transferida para a vítima, a empatia some quando se trata de violência doméstica. Essas pessoas ignoram a dependência emocional e o medo da vítima. Um medo muito justificado, já que a maioria dos assassinatos das mulheres vítimas de violência doméstica ocorrem no momento que elas decidem dar um basta na relação. Isso sem contar com a dependência financeira, algo que se torna ainda mais crítico quando o casal tem filhos.


A seguir uma palestra sobre violência doméstica de Leslie Steiner ao TED [4]. A palestra é muito esclarecedora sobre toda a complexidade das relações abusivas e o porquê é tão difícil sair de uma relação de abuso. Leslie Steiner esteve em um relacionamento com um homem que constantemente a agredia e ameaçava sua vida. Nesta palestra fala sobre o seu relacionamento e corrige más interpretações que muitas pessoas têm a respeito das vítimas de violência doméstica.

Leslie Morgan - Por que as vítimas de violência doméstica não vão embora?




Assista com legenda em português  aqui Leslie-TED


Mais sobre o tema ...

1. Hibisco Roxo


2. Lei Maria da Penha vale mesmo sem a denúncia da vítima


3. Sindrome de Estocolmo


4. TED - Violência Doméstica - Leslie Steiner



29 de jun de 2017

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos



Um dia a areia branca
Teus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar

Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

As luzes e o colorido
Que você vê agora
Nas ruas por onde anda
Na casa onde mora

Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente

18 de abr de 2017

Mentiras (Adriana Calcanhoto)





Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua família

Eu vou escrever no seu muro
E violentar o seu rosto
Eu quero roubar no seu jogo
Eu já arranhei os seus discos

Que é pra ver se você volta
Que é pra ver se você vem
Que é pra ver se você olha
Pra mim

10 de abr de 2017

O guardador de Rebanhos




XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento…

Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…


Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa em O guardado de Rebanhos


Leia outros poemas de Fernando Pessoa





22 de mar de 2017

DESTRUIÇÃO (Carlos Drummond de Andrade)

Imagem da Minissérie Os Maias 

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.



Leia outros poemas de Drummond ...

Quadrilha

Congresso Internacional do Medo

Em face dos últimos acontecimentos

Mãos Dadas

XIII - Leve (Fernando Pessoa)




Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo


Poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.





21 de mar de 2017

Senhor Cidadão (Tom Zé)



Senhor cidadão
senhor cidadão
Me diga, por quê
me diga por quê
você anda tão triste?
tão triste
Não pode ter nenhum amigo
senhor cidadão
na briga eterna do teu mundo
senhor cidadão
tem que ferir ou ser ferido
senhor cidadão
O cidadão, que vida amarga
que vida amarga.

Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?

Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantas mortes no peito,
com quantas mortes no peito
se faz a seriedade?