​Coração (Maria Thereza Noronha)

Autor: Candido Portinari

Coração

​Morreu de faca no peito
quanto o coração só lhe falava
de amor.
A faca se abriu em chaga
vermelha e meio com jeito
de flor.

Morreu de febre no leito
quando o coração já lhe falhava
no peito.
Deixou órfãos e viúva.
Partiu num dia de chuva
sem palavras.

Morreu de foice no eito
enquanto o coração lhe sussurrava:
— que proveito?
Deu por perdida a batalha:
a sua, não o que restava
a ser feito.

Morreu de fome e direito
negado, quando o coração
só lhe dizia CHEGA! E o esqueleto
já se entrevia antes de enterrado.
Morreu de omissão:
assassinado.

Morreu de fúria e despeito
quando o coração se lhe inchava no peito.
E a epígrafe se destacava:
"Não será de ninguém
o que é meu.
De direito!"

(Maria Thereza Noronha)

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Desafio Mulheres na Academia Brasileira

Profundamente (Manuel Bandeira)

Vista aérea do cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus
Foto: Michael Dantas/AFP

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?


— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci


Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


In "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001.

Bruxo do Cosme Velho

Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade.
Imagens: Wikipedia.

Machado de Assis morou durante muitos anos na casa nº 18 da rua Cosme Velho, no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro. Lá morreu em 1908 aos 69 anos, quase 4 anos após a morte de sua esposa Carolina Augusta de Novais.

O escritor ganhou o apelido "Bruxo do Cosme Velho " e este tornou-se sinônimo de seu nome em artigos em jornais, revistas e publicações acadêmicas. Ganhando mais força no meio literário quando Carlos Drummond de Andrade publicou um poema em sua homenagem “A um bruxo, com amor”. O poema foi publicado em 1958 no “Correio da Manhã”, confira abaixo um trecho do poema de Drummond dedicado a Machado de Assis.

A um bruxo, com amor


Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

[...]


Ao longo de sua carreira Drummond foi também um critico de Machado de Assis vindo a se retratando mais tarde. Aos 22 anos, considerava Machado de Assis um “entrave à obra de renovação da cultura geral” a ser repudiado, fato registrado com a publicação do seu artigo “Sobre a tradição em literatura”.

Os escritores do período modernista procuravam uma renovação literária e confrontar com Machado de Assis era um peso insuportável. O livro recém-publicado e organizado pelo Professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), Hélio de Seixas Guimarães, demonstra as mudanças e transformações de Drummond até a sua famosa retratação:

“Amor nenhum dispensa uma gota de ácido”



Machado de Assis foi tema de inúmeros textos de Drummond ao longo das décadas que separam as posições contrárias do artigo crítico da homenagem em seu poema. O livro do professor Hélio Guimarães reúne esses escritos e retraça o percurso da compreensão profunda do escritor mais velho pelo mais novo. Guimarães é também autor de outros livros sobre Machado de Assis. Na entrevista a seguir ele fala sobre seu livro "Machado de Assis o escritor que nos lê".




Referencias


Livro: Amor Nenhum Dispensa Uma Gota De Ácido por Carlos Drummond De Andrade (Autor),
Hélio de Seixas Guimarães (Editor)


Amor e ódio: como Drummond mudou de opinião sobre Machado de Assis
https://oglobo.globo.com/cultura/livros/amor-odio-como-drummond-mudou-de-opiniao-sobre-machado-de-assis-23677990



5 Séculos de Sonetos Portugueses

Terminei finalmente o desafio Mulheres na Academia Brasileira de Letras (ABL), relembrem aqui o Desafio. Numa breve retrospectiva, ao todo, 288 intelectuais já foram consagrados como imortais da ABL, desses apenas 8 são mulheres. A primeira foi Rachel de Queiroz em 1977, seguida por Dinah Silveira de Queiroz em 1980, a terceira foi Lygia Fagundes Telles em 1985, Nélida Piñon em 1989, Zélia Gattai em 2001, Ana Maria Machado em 2003, Cleonice Berardinelli, em 2009 e por fim, Rosiska Darcy, em 2013.


O livro escolhido para cumprir a última etapa do desafio foi Cinco Séculos de Sonetos Portugueses da escritora Cleonice Berardinelli (102 anos!!). A obra reúne antologia de poemas e coletânea de ensaios escritos ao longo de décadas. Nas palavras da escritora portuguesa Sophia Andresen, uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX, Cleonice pode ser descrita com alguém
 que procura tornar mais clara a cidade dos homens
Sophia Andresen faz parte da lista de poetas selecionados para o livro Cinco Séculos de Sonetos Portugueses. Cleonice descreve neste como teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a escritora em 1966, período em que Cleonice lecionava na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Cleonice Berardinelli.
Imagem: oglobo.
Para conhecer um pouco mais a escritora assista ao documentário O vento lá fora dirigido por Marcio Debellian. O documentário apresenta um retrato do poeta Fernando Pessoa a partir da leitura de poemas criado pela professora Cleonice Berardinelli e pela cantora Maria Bethânia. Confira   o Trailer do Filme a seguir:



Espero que tenham gostado do desafio. Pretendo continuar a conhecer outras obras das autoras imortalizadas pela ABL e também de muitas outras escritoras brilhantes que não foram escolhidas, o que certamente não ocorreu por falta de mérito.