26 de ago de 2015

A medida do abismo (Vinicius de Moraes)

Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Sempre que cismo
Sobre tua vida
Tão louca e errada...
- Que grito inútil!
- Que imenso nada!



Veja também outros poemas de Vinicius de Moraes ...

 A hora íntima 

Dialética

Soneto da Fidelidade 

Aquarela

Soneto da Hora Final

19 de ago de 2015

Memorial de Maria Moura - Raquel de Queiroz

Desafio Mulheres da ABL

Aos 82 anos Rachel de Queiroz publica “Memorial de Maria Moura”, considerada a obra-prima da autora. O romance apresenta a saga de uma mulher no sertão nordestino contra a submissão feminina na sociedade do século XIX.

Amei ler Memorial de Maria Moura, sempre tive curiosidade de ler o livro depois de assistir a uma minissérie homônima (1998) baseada nessa obra. A minissérie foi foi um grande sucesso de audiência e alavancou a venda do romance de Rachel de Queiroz.

Imagem de Minissérie Memorial de Maria Moura

A leitura do romance me causou uma certa estranheza por dois motivos, o primeiro é: Maria Moura vira uma fora da lei, mas ao mesmo tempo que você torce por ela você se sente mal por esperar dela uma moralidade superior. Mas de certa forma (nesse meio) ela tem sim uma moralidade superior. Um exemplo disso é não aceitar escravos como ainda era comum na época, tornando livres todos aqueles que desejassem seguir seu bando.
“Pois eu nunca andei com cativo. A morte da gente é a alforria deles. Se eu tenho algum negro bom ao meu serviço, alforrio primeiro. Dizia meu pai: “Se perde um escravo e se ganha um amigo”. Ficou sendo essa a minha lei. ” (Trecho de Memorial de Maria Moura, 1992)

O segundo motivo é: Ela é uma personagem muito forte mas ao mesmo tempo ela tem momentos de fraqueza num relacionamento que quase a destrói, é inicialmente muito decepcionante pois você acaba esquecendo que ela é humana e passível a cometer erros também, por fim, isso apenas enriquece a obra.

Memorial de Maria Moura


Capa Memorial de Maria Moura

Quando menina, Maria Moura saía pela mata com os muleques matando passarinho, pescando piaba no açude, mas depois de moça vê-se presa em casa. Era proibida de sair, passear mesmo somente nas festas da igreja, “filha de fazendeiro não vai a samba de caboclo, nem a baile de bodegueiro da vila” e também não era convidada a festas de fazendeiro ricos, pois a sua mãe havia caído na boca do povo. O pai de Moura morre quando ela ainda é criança e sua mãe começa um relacionamento público com Liberato, porém, eles não se casam, o que era um escândalo para a época.

Os conflitos motivado por posses de terras são dominantes na obra. A fazenda do Limoeiro onde eles moraram era uma herança do avó materno de Moura, eles haviam herdado apenas um terço da propriedade. O família de Moura ocupa-se da fazenda e recusa-se a ceder a herança aos outros herdeiros vivos, os primos Tonho, Irineu e Marialva.

A mãe de Maria Moura suicida-se quanto Moura tinha 17 anos. Após a morte da mãe, Liberato passa a cuidar de Maria Moura e estes ficam muito próximos, porém Liberato começa a seduzir Moura aos poucos e eles acabam se relacionando em segredo. Mais tarde ela vê-se ameaçada por Liberato por conta de sua herança que Liberato pretendia “administrar” e descobre que o suposto suicídio da mãe foi na verdade um assassinado. Nesse momento de muito medo Moura cria forças e monta uma emboscada para matá-lo e assim começa o novo mandamento de Maria Moura que a marcaria dai em diante
“era ou ele ou eu”

Os constantes conflitos por posse de terras levava muitas famílias a casarem os filhos com familiares para que os bens continuassem na família. Enquanto Liberato era vivo os primos não se atreviam a tentar tomar sua parte na herança, porém, com Moura órfã de pai e mãe, mulher, sozinha os primos tentaram fazer um cerco na sua fazenda para tomar as terras, sequestrar Maria Moura e então casá-la com Irineu. As terras ficariam assim “em família”. Moura antecipa-se a essa emboscada, reuni suas forças na (os seus “cabras”) e vão em busca de armamento e munição para sua defesa. Ela não consegue garantir a posse da fazenda e, antes de se ver obrigada a ceder, ateia fogo na fazenda e foge com os seu cabras.

Maria Moura segue então em retirada para a Serra dos Padres, para retomar uma terra herdada a muito tempo pelo avó. Lá levanta a sua casa (a “Casa Forte”) e se entrincheira, cada vez com mais homens sob seu comando, solitária, afastada de seu grupo de relações sociais e da intriga com seus primos.

“(...) eu sentia (e sinto ainda) que não nasci pra coisa pequena. Quero ser gente. Quero falar com os grandes de igual para igual. Quero ter riqueza! A minha casa, o meu gado, as minhas terras largas. A minha cabroeira me garantindo. Viver em estrada aberta e não escondida pelos matos em cabana disfarçada como índio ou quilombola.” (Trecho de Memorial de Maria Moura, 1992)

Durante o caminho faz várias emboscadas e furtos para melhor equipar o seu bando que ia crescendo aos poucos, as emboscadas são inicialmente o motivo da sua fama, até ver-se em tal riqueza que tornam-se desnecessárias, já possuindo suas terras, gado e até comercio. A Casa Forte passa a ter grande fama não por sua grande riqueza em si, mas pela segurança que brinda aqueles que necessitam de refúgio seja por problemas com a justiça ou por brigas familiares. Uma segurança que se viu ameaçada pela paixão de Moura por Cirino, um filho de um fazendeiro, protegido pela Casa Forte. Cirino trai não apenas sua confiança mas o nome e prestígio da Casa Forte.


Essa postagem faz parte do Desafio Mulheres da Academia Brasileira de Letras em parceria com o blog 500 Livros.


Confira os livros que já foram lidos:

O Quinze - Rachel de Queiroz

O Baile de Máscaras - Rosiska Darcy de Oliveira

Tropical Sol da Liberdade - Ana Maria Machado

25 de jul de 2015

Desafio Mulheres da ABL : Rachel de Queiroz

Biografia de Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz (1910 — 2003) foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras em 1977 e também a primeira mulher a receber o Prêmio Camões em 1993. Destacou-se na ficção social nordestina e uma de suas principais temáticas foi a posição da mulher na sociedade.

Aos vinte anos, publica o seu primeiro livro O Quinze (1930), romance que mostra a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria. O Quinze chamou a atenção da crítica e do público projetando Rachel de Queiroz na literatura nacional. Graciliano Ramos, após ler O quinze em 1933, confessou mais tarde:

“Durante muito tempo ficou-me a ideia idiota de que ela era homem, tão forte estava em mim o preconceito que excluía as mulheres da literatura.” 

Vinculada brevemente ao Partido Comunista, Rachel rompeu sua filiação quando a direção do Partido não aprovou os originais de seu segundo livro, João Miguel. Eles exigiam que ela reescrevesse a história com alterações do tipo "ao invés de ser o operário que matava o burguês, tinha que ser o burguês que matava o operário" entre outras [1]. Em entrevista Rachel fala sobre o rompimento, queixando-se da estreiteza mental e escravidão intelectual do partido

“essa estreiteza, essa escravidão (...) ou você era escravo deles ou eles não te admitiam”.

Com a decretação do Estado Novo em 1937, Rachel é perseguida e tem seus livros queimados em Salvador – BA. Rachel permanece detida, por três meses, na sala de cinema do quartel do Corpo de Bombeiros de Fortaleza.

Em 1957 recebe o primeiro reconhecimento por parte da Academia Brasileira de Letras, recebe o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra e vinte anos depois é eleita como membro da ABL.

Raquel de Queiroz foi favorável à deposição do presidente João Goulart em 1964. O apoio ao Golpe de 64 custou caro à escritora [2]. Em entrevistada ao programa Roda Viva em 1991, ao ser questionada pelo motivo, a escritora responde: “Eu abominava o janguismo e ainda hoje abomino o Brizola, que representa o janguismo, o Getúlio. Era uma expressão disso tudo”.

Sobre as torturas do regime militar, ela afirma “ A revolução que apoiei foi enquanto Castelo Branco era presidente [foi o primeiro presidente do regime militar instaurado pelo golpe de 1964] e ele não fez tortura nenhuma, a intenção dele era fazer eleições para um presidente civil (...) Mas ele não conseguiu. (...) Não conseguiu, ele foi praticamente deposto. Fez se aquela eleição do Costa e Silva, mas o Castelo foi praticamente deposto pelo grupo militar que era mais forte, e era o grupo reacionário do Costa e Silva. ”

Sobre a sua nomeação a membro da ABL, Rachel fala em entrevista no programa Frente a Frente porque acha que foi nomeada e sobre a pouca presença de mulheres na ABL (Confira a resposta em 22 min 40s). 

Assista à Entrevista:



Essa postagem faz parte do Desafio Mulheres na ABL em colaboração com o Blog 500 Livros.

Confira os livros que já foram lidos:

O Quinze - Rachel de Queiroz

O Baile de Máscaras - Rosiska Darcy de Oliveira

Tropical Sol da Liberdade - Ana Maria Machado


Referências

1. Entrevista Frente a Frente
2. Revista de História - Rachel de Queiroz
2. Entrevista Roda Viva R Queiroz
3. Documentário TV Camara

14 de jul de 2015

​Coração (Maria Thereza Noronha)

Imagem: Lancastria




​Morreu de faca no peito
quanto o coração só lhe falava
de amor.
A faca se abriu em chaga
vermelha e meio com jeito
de flor.


Morreu de febre no leito
quando o coração já lhe falhava
no peito.
Deixou órfãos e viúva.
Partiu num dia de chuva
sem palavras.


12 de jul de 2015

Esquadros (Adriana Calcanhoto)



Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Pra sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome