10 de ago de 2016

Romance em doze linhas (Bruna Beber)

quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu


Bruna Beber (foto: Reprodução Facebook)


Bruna Beber é um poetisa carioca. Publicou seu livro de estréia "a fila sem fim dos demônios descontentes" em 2006, de lá pra cá vieram Rapapés & apuposBalésRua da PadariAConheça um pouco mais sobre a escritora em sua página pessoal Avoa dinossauro ou na entrevista concedida a Fabiane Ferreira Entrevista Bruna Beber.

28 de jul de 2016

Descobrindo e Amando Nélida Piñon

Nélida Piñon é uma escritora brasileira nascida no Rio de Janeiro. Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), desde 1989, e foi a primeira (e única) mulher a presidir a instituição. Nélida escreveu diversos livros. Entre os mais consagrados estão: os romances A República dos Sonhos e Vozes no Deserto, ambos traduzidos para o inglês, a coletânea de contos O Calor das Coisas e a coletânea, quase autobiográfica, O Pão de Cada Dia – Fragmentos.
O Pão de Cada Dia é uma coleção de pequenos textos de Nélida, escritos ao longo de toda a sua vida. Esses excertos falam sobre quatro temas centrais: a família e suas origens, viagens pela Europa, a arte literária em si e seus escritores, religiosidade.
Sobre a família, logo no começo do livro descobre-se que a autora é filha de um pai da Galícia1, região da Espanha que fascina Nélida, assim como a Catalunha2. A mãe da escritora era uma mineira de São Lourenço, portanto, Nélida cresceu no meio de  culturas distintas e soube aproveitar o melhor de cada uma delas.

“Na Catalunha a viajante sente-se em casa. Cercada pelos seus cenários apaixonantes, o coração sobressalta-lhe.”

4 de jul de 2016

Verdade seja dita (Mel Duarte)



Verdade seja dita
Você que não mova sua pica pra impor respeito a mim.
Seu discurso machista, machuca
E a cada palavra falha
Corta minhas iguais como navalha
NINGUÉM MERECE SER ESTUPRADA!
Violada, violentada
Seja pelo abuso da farda
Ou por trás de uma muralha
Minha vagina não é lixão
Pra dispensar as tuas tralhas

Canalha!

Tanta gente alienada
Que reproduz seu discurso vazio
E não adianta dizer que é só no Brasil
Em todos os lugares do mundo,
Mulheres sofrem com seres sujos
Que utilizam da força quando não só, até em grupos!
Praticando sessões de estupros que ficam sem justiça.

21 de jun de 2016

Pra Ter o Que Fazer (Clarice Falcão)

Nada gosta de não fazer nada
Todo telefone quer tocar
Uma janela é tão infeliz fechada
Quanto um carro sempre no mesmo lugar

Um relógio parado não existe
Um som sem som tem uma vida ruim
O apêndice é o órgão mais triste
Por que comigo não vai ser assim?

E aí eu marco três consultas
Antes de adoecer
E aí eu faço um estardalhaço
Só pra ter o que fazer

E eu me complico toda muito
Pra depois me resolver
E essa história demora horas
Só pra ter o que fazer




15 de jun de 2016

Tão cedo passa tudo quanto passa!

Fernando Pessoa por Hermenegildo Sábat.
Tão cedo passa tudo quanto passa!

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.


Tão Cedo


Tão cedo tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.


Poema extraído de 'Poemas de Ricardo Reis', obra disponível para download em Poemas de Ricardo Reis (Domínio Público)

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)