22 de mar de 2017

DESTRUIÇÃO (Carlos Drummond de Andrade)

Imagem da Minissérie Os Maias 

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.



Leia outros poemas de Drummond ...

Quadrilha

Congresso Internacional do Medo

Em face dos últimos acontecimentos

Mãos Dadas

XIII - Leve (Fernando Pessoa)




Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo


Poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.





21 de mar de 2017

Senhor Cidadão (Tom Zé)



Senhor cidadão
senhor cidadão
Me diga, por quê
me diga por quê
você anda tão triste?
tão triste
Não pode ter nenhum amigo
senhor cidadão
na briga eterna do teu mundo
senhor cidadão
tem que ferir ou ser ferido
senhor cidadão
O cidadão, que vida amarga
que vida amarga.

Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?

Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantas mortes no peito,
com quantas mortes no peito
se faz a seriedade?

Senhor cidadão
senhor cidadão
eu e você
eu e você
temos coisas até parecidas
parecidas:
por exemplo, nossos dentes
senhor cidadão
da mesma cor, do mesmo barro
senhor cidadão
enquanto os meus guardam sorrisos
senhor cidadão
os teus não sabem senão morder
que vida amarga

Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
com quantos quilos de medo,
com quantos quilos de medo
se faz uma tradição?
Oh senhor cidadão,
eu quero saber, eu quero saber
se a tesoura do cabelo
se a tesoura do cabelo
também corta a crueldade

Senhor cidadão
senhor cidadão
Me diga por que
me diga por que
Me diga por que
me diga porque



2 de mar de 2017

LIBERDADE (Fernando Pessoa)

literatura-brasileira
Adicionar legenda


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

1 de mar de 2017

Também os mortos (Eunice Arruda)

Imagem de Jeff juit
Imagem de Jeff Juit  

     

                                     Para Lúcia Ribeiro da Silva

Também os mortos
me acompanham

Entre um e outro
degrau

Paramos. Como quem
descansa um fardo

Ao cair da tarde
— xale vinho aquecendo o corpo —
os mortos me acompanham

Entre um e outro
degrau

Mas
não me toquem — ainda
estou sonhando —
...


Poema de Eunice Arruda, para saber um pouco mais sobre a autora

27 de fev de 2017

Um Girassol da Cor de Seu Cabelo (Lô Borges)




Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor de seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo

Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?

24 de fev de 2017

Amor é um fogo que arde sem se ver



Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luís Vaz de Camões)




Poema retirado de SONETOS de Luís Vaz de Camões.
Obra disponível em domínio público em SONETOS-Luís Vaz de Camões


Leia outros poemas de Camões ...

Sete anos de pastor Jacob servia

Alma minha gentil, que te partiste

Quem diz que amor é falso