Profundamente (Manuel Bandeira)

Vista aérea do cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus
Foto: Michael Dantas/AFP

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

In "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se Eu Fosse Eu (Clarice Lispector)

“— Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu.”