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Mostrando postagens de 2020

​Coração (Maria Thereza Noronha)

Pintura Retirantes de Candido Portinari Coração Morreu de faca no peito quanto o coração só lhe falavade amor. A faca se abriu em chaga vermelha e meio com jeito de flor. Morreu de febre no leito quando o coração já lhe falhava no peito. Deixou órfãos e viúva. Partiu num dia de chuva sem palavras. Morreu de foice no eito enquanto o coração lhe sussurrava: — que proveito? Deu por perdida a batalha: a sua, não o que restava a ser feito. Morreu de fome e direito negado, quando o coração só lhe dizia CHEGA! E o esqueleto já se entrevia antes de enterrado. Morreu de omissão: assassinado. Morreu de fúria e despeito quando o coração se lhe inchava no peito. E a epígrafe se destacava: "Não será de ninguém o que é meu. De direito!" - Maria Thereza Noronha

Motivo

Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada. — Poema de Cecília Meireles retirado do livro Viagem (1939) Livro Viagem de Cecília Meireles Editora Global. Leia outros poemas de Cecília Meireles ... E o meu caminho começa ... Romance XIX ou dos maus presságios Herança

Profundamente (Manuel Bandeira)

Foto: Michael Dantas/AFP Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes, cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam, errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? — Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente. Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente. In " Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2001.

Romanceiro da Inconfidência

...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda... In Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles Romanceiro da Inconfidência é uma coletânea de poemas de Cecília Meireles (1901-1964), publicada em 1953, que conta a História de Minas dos inícios da colonização no século XVII até a Inconfidência Mineira (revolta separatista ocorrida em fins do século XVIII na então Capitania de Minas Gerais). Cecília aborda a escravidão na região central do planalto em episódios da exploração do ouro e dos diamantes no século XVIII. O centro da coletânea é dedicado ao destino dos heróis da chamada "Inconfidência Mineira" - Joaquim José da Silva Xavier , Tomás Antônio Gonzaga , sua noiva Marília de Dirceu bem como de outras figuras históricas como D. Maria I. A obra assume o lado dos derrotados (transformados depois em heróis da Independência do Brasil) denunciando o sistema colonial que favorece a exploração d

por temor nos calamos

Livro No Caminho com Maiakóvski NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI Assim como a criança humildemente afaga a imagem do herói, assim me aproximo de ti, Maiakóvski. Não importa o que me possa acontecer por andar ombro a ombro com um poeta soviético. Lendo teus versos, aprendi a ter coragem. Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na Segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. Nos dias que correm a ninguém é dado repousar a cabeça alheia ao terror. Os humildes baixam a cerviz; e nós, que não temos pacto algum com os senhores do mundo, por temor nos calamos. No silêncio de meu quarto a ousadia me afogueia as faces e eu fantasio um levante