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Lygia Fagundes Telles - o desafio continua

Lygia Fagundes Telles morreu no domingo em sua casa em São Paulo, aos 98 anos. Lygia foi a terceira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Em 1985, tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras e, em 2005, recebeu, pelo conjunto de suas obras, a consagração máxima para um autor da Língua Portuguesa, o Prêmio Camões. Eu sou uma jogadora. Meu pai era um jogador. Ele jogava com as fichas, eu jogo com as palavras. Eu acho que nós temos de arriscar, o tempo todo, até a morte. Então, arrisco e acho válido. É uma forma de transpor o círculo de giz, a fronteira. Isto, para o escritor, é sempre uma esperança. — Lygia Fagundes Telles [1] Lygia Fagundes Telles em capa da Revista "Cadernos de Literatura Brasileira" Manifesto dos Intelectuais - 1977 Durante a ditadura militar, Lygia Fagundes Telles, junto a outros colegas, liderou a elaboração de um abaixo-assinado de mais de mil signatários contra a censura. Trata

Memorial de Maria Moura (Rachel de Queiroz)

Aos 82 anos Rachel de Queiroz publica Memorial de Maria Moura, considerada a obra-prima da autora. O romance apresenta a saga de uma mulher no sertão nordestino contra a submissão feminina na sociedade do século XIX. A obra foi adaptada a uma minissérie exibida em 1994. A minissérie foi um grande sucesso de audiência e alavancou a venda do romance de Rachel de Queiroz.

Imagem de Minissérie Memorial de Maria Moura 


Livro Memorial de Maria Moura


Quando menina, Maria Moura saía pela mata com os muleques matando passarinho, pescando piaba no açude, mas depois de moça vê-se presa em casa. Era proibida de sair, passear mesmo somente nas festas da igreja, “filha de fazendeiro não vai a samba de caboclo, nem a baile de bodegueiro da vila” e também não era convidada a festas de fazendeiro ricos, pois a sua mãe havia caído na boca do povo. O pai de Moura morre quando ela ainda é criança e sua mãe começa um relacionamento público com Liberato, porém, eles não se casam, o que era um escândalo para a época.

Os conflitos motivado por posses de terras são dominantes na obra. A fazenda do Limoeiro onde eles moraram era uma herança do avó materno de Moura, eles haviam herdado apenas um terço da propriedade. O família de Moura ocupa-se da fazenda e recusa-se a ceder a herança aos outros herdeiros vivos, os primos Tonho, Irineu e Marialva.

A mãe de Maria Moura suicida-se quanto Moura tinha 17 anos. Após a morte da mãe, Liberato passa a cuidar de Maria Moura e estes ficam muito próximos, porém Liberato começa a seduzir Moura aos poucos e eles acabam se relacionando em segredo. Mais tarde ela vê-se ameaçada por Liberato por conta de sua herança que Liberato pretendia “administrar” e descobre que o suposto suicídio da mãe foi na verdade um assassinado. Nesse momento de muito medo Moura cria forças e monta uma emboscada para matá-lo e assim começa o novo mandamento de Maria Moura que a marcaria dai em diante
“era ou ele ou eu”
Os constantes conflitos por posse de terras levava muitas famílias a casarem os filhos com familiares para que os bens continuassem na família. Enquanto Liberato era vivo os primos não se atreviam a tentar tomar sua parte na herança, porém, com Moura órfã de pai e mãe, mulher, sozinha os primos tentaram fazer um cerco na sua fazenda para tomar as terras, sequestrar Maria Moura e então casá-la com Irineu. As terras ficariam “em família”. Moura antecipa-se a essa emboscada, reuni suas forças na (os seus “cabras”) e vão em busca de armamento e munição para sua defesa. Ela não consegue garantir a posse da fazenda e, antes de se ver obrigada a ceder, ateia fogo na fazenda e foge com os seu cabras.

Maria Moura segue então em retirada para a Serra dos Padres, para retomar uma terra herdada a muito tempo pelo avó. Lá levanta a sua casa (a “Casa Forte”) e se entrincheira, cada vez com mais homens sob seu comando, solitária, afastada de seu grupo de relações sociais e da intriga com seus primos.

“(...) eu sentia (e sinto ainda) que não nasci pra coisa pequena. Quero ser gente. Quero falar com os grandes de igual para igual. Quero ter riqueza! A minha casa, o meu gado, as minhas terras largas. A minha cabroeira me garantindo. Viver em estrada aberta e não escondida pelos matos em cabana disfarçada como índio ou quilombola.”
(Trecho de Memorial de Maria Moura, 1992)

Durante o caminho faz várias emboscadas e furtos para melhor equipar o seu bando que ia crescendo aos poucos, as emboscadas são inicialmente o motivo da sua fama, até ver-se em tal riqueza que tornam-se desnecessárias, já possuindo suas terras, gado e até comercio. A Casa Forte passa a ter grande fama não por sua grande riqueza em si, mas pela segurança que brinda aqueles que necessitam de refúgio seja por problemas com a justiça ou por brigas familiares. Uma segurança que se viu ameaçada pela paixão de Moura por Cirino, um filho de um fazendeiro, protegido pela Casa Forte. Cirino trai não apenas sua confiança mas o nome e prestígio da Casa Forte.

Maria Moura vira uma fora da lei, mas ao mesmo tempo que você torce por ela você se sente mal por esperar dela uma moralidade superior. Mas de certa forma ela se mostra a frente de seu tempo em outros aspectos. Um exemplo disso é não aceitar escravos como ainda era comum na época, tornando livres todos aqueles que desejassem seguir seu bando.

“Pois eu nunca andei com cativo. A morte da gente é a alforria deles. Se eu tenho algum negro bom ao meu serviço, alforrio primeiro. Dizia meu pai: “Se perde um escravo e se ganha um amigo”. Ficou sendo essa a minha lei. ”
(Trecho de Memorial de Maria Moura, 1992)

Apesar de ter se tornado uma mulher muito forte, Moura entra em um relacionamento que quase a destrói, é inicialmente decepcionante, pois você acaba esquecendo que ela é humana e passível a cometer erros também, por fim, isso apenas enriquece a obra.

Essa postagem faz parte do Desafio Mulheres na ABL.
Confira os livros que já foram lidos aqui Desafio Mulheres na ABL.

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