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Mostrando postagens de 2017

O Enterrado Vivo

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Estátua de Drummond no Rio de Janeiro. (Fonte:Wikipedia) O Enterrado Vivo É sempre no passado aquele orgasmo, é sempre no presente aquele duplo, é sempre no futuro aquele pânico. É sempre no meu peito aquela garra. É sempre no meu tédio aquele aceno. É sempre no meu sono aquela guerra. É sempre no meu trato o amplo distrato. Sempre na minha firma a antiga fúria. Sempre no mesmo engano outro retrato. É sempre nos meus pulos o limite. É sempre nos meus lábios a estampilha. É sempre no meu não aquele trauma. Sempre no meu amor a noite rompe. Sempre dentro de mim meu inimigo. E sempre no meu sempre a mesma ausência. Poema de Carlos Drummond de Andrade publicado no livro Fazendeiro do Ar em 1954 .

O LADO ERÓTICO DA PRODUÇÃO DE HILDA HILST

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Hilda Hilst foi uma poetisa, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. A artista nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 1930, e faleceu em Campinas, aos 74 anos. Hilda é considerada, pela crítica especializada, a melhor escritora em língua portuguesa do século XX. Nos últimos anos de sua vida, Hilda passou por dificuldade financeira. O compositor Zeca Baleiro musicou alguns de seus trabalhos e convenceu diversos artistas a gravarem em solidariedade à Hilda. Disso resultou o trabalho Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé (relembre aqui ). O blog Literatura Brasileira também já publicou os belíssimos poemas de Hilda: Que este amor não me cegue e não me siga (relembre aqui ) e Aflição de ser eu e não ser outra (relembre aqui ). Hilda Hilst também deixou trabalhos que chocaram o públ

Hibisco Roxo

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Hibisco Roxo é o primeiro romance da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie . 1 O tema central da obra é violência doméstica. A história é narrada pela adolescente Kambili, que junto a seu irmão e sua mãe sofrem por conta do fanatismo religioso e violência por parte do seu pai Eugene. Livro Hibisco Roxo , Editora Companhia das Letras A forma como a escritora trata a dependência emocional das vítimas numa relação de violência doméstica é muito realista e acredito que esse tipo de leitura pode fazer com que as pessoas tenham mais empatia e conhecimento sobre relacionamentos abusivos. Tomar conhecimento dessa dependência explica uma recente alteração na Lei Maria da Penha, agora a denúncia de terceiros é o suficiente para abrir uma ação contra um agressor 2 . Antes, para abrir a ação contra um agressor, era necessária a denúncia da vítima. Se ela fosse agredida, mas não denunciasse o companheiro, nada poderia

Mentiras (Adriana Calcanhoto)

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Nada ficou no lugar Eu quero quebrar essas xícaras Eu vou enganar o diabo Eu quero acordar sua família Eu vou escrever no seu muro E violentar o seu rosto Eu quero roubar no seu jogo Eu já arranhei os seus discos Que é pra ver se você volta Que é pra ver se você vem Que é pra ver se você olha Pra mim

O guardador de Rebanhos

XI - Sou um guardador de rebanhos Sou um guardador de rebanhos O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto. E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei a verdade e sou feliz. XIII - Leve Leve, leve, muito leve, Um vento muito leve passa, E vai-se, sempre muito leve. E eu não sei o que penso Nem procuro sabê-lo XXI Se eu pudesse trincar a terra toda E sentir-lhe um paladar, E se a terra fosse uma coisa para trincar Seria mais feliz um momento… Mas eu nem sempre quero ser feliz. É preciso ser de vez em quando infeliz Para se poder ser natural… Nem tudo é dias de sol, E a chuva, quando falta muito, pede-se. Por isso tomo a infelicidade com a felicidade Naturalmen

DESTRUIÇÃO (Carlos Drummond de Andrade)

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Imagem da Minissérie Os Maias de Maria Adelaide Amaral  Os amantes se amam cruelmente e com se amarem tanto não se vêem. Um se beija no outro, refletido. Dois amantes que são? Dois inimigos. Amantes são meninos estragados pelo mimo de amar: e não percebem quanto se pulverizam no enlaçar-se, e como o que era mundo volve a nada. Nada, ninguém. Amor, puro fantasma que os passeia de leve, assim a cobra se imprime na lembrança de seu trilho. E eles quedam mordidos para sempre. Deixaram de existir mas o existido continua a doer eternamente. Leia outros poemas de Drummond ... Quadrilha Congresso Internacional do Medo Em face dos últimos acontecimentos Mãos Dadas

Senhor Cidadão (Tom Zé)

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Senhor cidadão senhor cidadão Me diga, por quê me diga por quê você anda tão triste? tão triste Não pode ter nenhum amigo senhor cidadão na briga eterna do teu mundo senhor cidadão tem que ferir ou ser ferido senhor cidadão O cidadão, que vida amarga que vida amarga. Oh senhor cidadão, eu quero saber, eu quero saber com quantos quilos de medo, com quantos quilos de medo se faz uma tradição? Oh senhor cidadão, eu quero saber, eu quero saber com quantas mortes no peito, com quantas mortes no peito se faz a seriedade?

Também os mortos (Eunice Arruda)

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Imagem de Jeff Juit                                               Para Lúcia Ribeiro da Silva Também os mortos me acompanham Entre um e outro degrau Paramos. Como quem descansa um fardo Ao cair da tarde — xale vinho aquecendo o corpo — os mortos me acompanham Entre um e outro degrau Mas não me toquem — ainda estou sonhando — ... Poema de Eunice Arruda , um pouco mais sobre a autora em  Poetisa Eunice Arruda

Poemas Escolhidos (Mia Couto)

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Mia Couto — António Emílio Leite Couto — é um biólogo, jornalista e escritor de Moçambique, membro correspondente da Academia Brasileira de Letras . Ele destaca-se tanto na prosa como na poesia e já coleciona uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013 e o Neustadt International Prize de 2014. Um dos juris do Prêmio Camões (Lusa J. C. Vasconcelos) justificou a escolha de Mia Couto da seguinte forma: Ao longo de 30 anos de publicação, ele construiu uma vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e profunda humanidade, o que tem sabido renovar na sua produção — Lusa J. C. Vasconcelos O seu primeiro romance Terra sonâmbula (2007) foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri especial criado pela Feira do Livro do Zimbábue. Este já foi adicionado à minha Meta de Leituras. Mia Couto ao lado de nomes como Chimamanda Adichie e Ondjaki fazem parte de uma nova geração de escritores africanos com a

Um Girassol da Cor de Seu Cabelo (Lô Borges)

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Vento solar e estrelas do mar A terra azul da cor de seu vestido Vento solar e estrelas do mar Você ainda quer morar comigo Se eu cantar não chore não É só poesia Eu só preciso ter você Por mais um dia Ainda gosto de dançar Bom dia Como vai você? Sol, girassol, verde vento solar Você ainda quer morar comigo Vento solar e estrelas do mar Um girassol da cor de seu cabelo Se eu morrer não chore não É só a lua É seu vestido cor de maravilha nua Ainda moro nesta mesma rua Como vai você? Você vem? Ou será que é tarde demais? Se eu cantar não chore não É só poesia Eu só preciso ter você Por mais um dia Ainda gosto de dançar Bom dia Como vai você? Você vem? Será que é tarde demais? O meu pensamento Tem a cor de seu vestido Ou um girassol que Tem a cor de seu cabelo? Ouça também ... ♪ ♫ ♩ ♫ ♬ ♪ ♫ De Mais Ninguém Jõao e Maria ​ ​​ ​Suíte do pescador ​ Eu que não amo você

Amor é um fogo que arde sem se ver

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Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor? — Luís Vaz de Camões Poema retirado de SONETOS de Luís Vaz de Camões. Obra disponível para download no Portal Domínio Público. Portal Domínio Publico. www.dominiopublico.gov.br Capa do Livro Sonetos da editora Martin Claret (2013).

O pobre poema (Mario Quintana)

Eu escrevi um poema horrível! É claro que ele queria dizer alguma coisa... Mas o quê? Estaria engasgado? Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade de quem, sem ler os jornais, soubesse dos seqüestros dos que morrem sem culpa dos que se desviam porque todos os caminhos estão [tomados... Poema, menininho condenado, bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... Tomado, então, de um ódio insensato, esse ódio que enlouquece os homens ante a [insuportável verdade, dilacerei-o em mil pedaços. E respirei... Também! quem mandou ter ele nascido no mundo [errado? Poema extraído do livro Baú de espantos  de Mário Quintana . Outros poemas de Mário Quintana ... Bilhete O Poeta O descobridor O silêncio

Dialética (Vinicius de Moraes)

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É claro que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo E tenho tudo para ser feliz Mas acontece que eu sou triste... Vinicius de Moraes Veja também outros poemas de Vinicius de Moraes ...  A hora íntima  Soneto da Fidelidade  Aquarela Soneto da Hora Final

Ora (direis) ouvir estrelas!

XII Sonhei que me esperavas. E, sonhando, Saí, ansioso por te ver: corria... E tudo, ao ver-me tão depressa andando, Soube logo o lugar para onde eu ia. E tudo me falou, tudo! Escutando Meus passos, através da ramaria, Dos despertados pássaros o bando: "Vai mais depressa! Parabéns!" dizia. Disse o luar: "Espera! que eu te sigo: Quero também beijar as faces dela!" E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!" E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela: "Como és feliz! como és feliz, amigo, Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!" XIII "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A via láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto. Direis agora! "Tresloucado amigo! Que conversas com elas?

Memorial de Maria Moura (Rachel de Queiroz)

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Aos 82 anos Rachel de Queiroz publica Memorial de Maria Moura, considerada a obra-prima da autora. O romance apresenta a saga de uma mulher no sertão nordestino contra a submissão feminina na sociedade do século XIX. A obra foi adaptada a uma minissérie  exibida em 1994. A minissérie foi um grande sucesso de audiência e alavancou a venda do romance de Rachel de Queiroz. Imagem de Minissérie Memorial de Maria Moura  Livro Memorial de Maria Moura Quando menina, Maria Moura saía pela mata com os muleques matando passarinho, pescando piaba no açude, mas depois de moça vê-se presa em casa. Era proibida de sair, passear mesmo somente nas festas da igreja, “filha de fazendeiro não vai a samba de caboclo, nem a baile de bodegueiro da vila” e também não era convidada a festas de fazendeiro ricos, pois a sua mãe havia caído na boca do povo. O pai de Moura morre quando ela ainda é criança e sua mãe começa um relacionamento público com Liberato, porém, eles não se casam, o que era um e