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Mostrando postagens de Agosto, 2016

Testamento (Manuel Bandeira)

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O que não tenho e desejo É que melhor me enriquece. Tive uns dinheiros — perdi-os... Tive amores — esqueci-os. Mas no maior desespero Rezei: ganhei essa prece. Vi terras da minha terra. Por outras terras andei. Mas o que ficou marcado No meu olhar fatigado, Foram terras que inventei. Gosto muito de crianças: Não tive um filho de meu. Um filho!... Não foi de jeito... Mas trago dentro do peito Meu filho que não nasceu. Criou-me, desde eu menino Para arquiteto meu pai. Foi-se-me um dia a saúde... Fiz-me arquiteto? Não pude! Sou poeta menor, perdoai! Não faço versos de guerra. Não faço porque não sei. Mas num torpedo-suicida Darei de bom grado a vida Na luta em que não lutei! Poesia extraída do livro Antologia Poética de Manuel Bandeira .

Romance em doze linhas (Bruna Beber)

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quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada vez menos quanto falta pra gente não querer se ver quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu Bruna Beber (foto: Reprodução Facebook) Bruna Beber é um poetisa carioca. Publicou seu livro de estréia " a fila sem fim dos demônios descontentes " em 2006, e de lá pra cá vieram Rapapés & apupos , Balés e Rua da Padaria .

de mais ninguém

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Se ela me deixou, a dor É minha só, não é de mais ninguém. Aos outros eu devolvo a dó Eu tenho a minha dor. Se ela preferiu ficar sozinha, Ou já tem um outro bem Se ela me deixou a dor é minha, A dor é de quem tem. É meu troféu, é o que restou, É o que me aquece sem me dar calor. Se eu não tenho o meu amor, Eu tenho a minha dor A sala, o quarto, a casa está vazia, A cozinha, o corredor. Se nos meus braços ela não se aninha, A dor é minha. Se ela me deixou, a dor É minha só, não é de mais ninguém Aos outros eu devolvo a dó Eu tenho a minha dor Se ela preferiu ficar sozinha, Ou já tem um outro bem Se ela me deixou, A dor é minha, A dor é de quem tem Mmmh... mmmh... É o meu lençol, é o cobertor. É o que me aquece sem me dar calor Se eu não tenho o meu amor, Eu tenho a minha dor A sala, o quarto, A casa está vazia, A cozinha, o corredor. Se nos meus braços, Ela não se aninha, A dor é minha, a dor. Mmmh mmmh... Ouça também ... ♪ ♫ ♩ ♫ ♬ ♪ ♫ Outra vez