Pular para o conteúdo principal

Com licença poética (Adélia Prado)

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


https://outrospassos.milharal.org/2014/08/25/amar-sem-jejum-de-sentimento/
Adélia Prado


Leia também ...

​Motivo​ de Cecília Meireles

Mascarados de Cora Coralina

Fanatismo de Florbela Espanca

Pensamentos que reúnem um tema de Adalgisa Nery.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Se Eu Fosse Eu (Clarice Lispector)

A Crônica “ Se Eu Fosse Eu ” de Clarice Lispector foi publicada em 30 de novembro de 1968 pelo Jornal do Brasil. Esta e outras cronicas podem ser encontradas no livro A descoberta do Mundo , que reúne as crônicas que ela escreveu para o Jornal do Brasil no período de 1967 a 1973. SE EU FOSSE EU “Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se e

Erro de português (Oswald de Andrade)

O Descobrimento do Brasil por Cândido Portinari Erro de português Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português — Oswald de Andrade

MAR PORTUGUÊS (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Pintura a óleo de Carlos Alberto Santos Poema extraído de Mensagem de Fernando Pessoa. Disponível para download em Domínio Público . Leia outros poemas de Fernando Pessoa Todas as Cartas de Amor são Ridículas Agora que sinto amor Sou um guardador de rebanhos Liberdade