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Mostrando postagens de Junho, 2015

LEMBRANÇA DE MORRER (Álvares de Azevedo)

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Álvares de Azevedo por Nilo No more! O never more! SHELLEY Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento. Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto o poento caminheiro... Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro... Como o desterro de minh’alma errante, Onde fogo insensato a consumia, Só levo uma saudade — é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia.

Resíduo (Drummond)

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Fotografia: Carlos Drummond e sua filha Maria Julieta de Andrade. De tudo ficou um pouco Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco. Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos pouco, pouco, muito pouco. Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço ― vazio ― de cigarros, ficou um pouco. Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato. Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte, no barco, nos anúncios de jornal, um pouco de mim em Londres, um pouco de mim algures? na

Alma minha gentil, que te partiste (Luís Vaz de Camões)

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 Ilustração de Danuta Wojciechowska. "Nomes com História: Luís de Camões" Alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo, onde subiste, memória desta vida se consente, não te esqueças daquele amor ardente que já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer te algüa causa a dor que me ficou da mágoa, sem remédio, de perder te, roga a Deus, que teus anos encurtou, que tão cedo de cá me leve a ver te, quão cedo de meus olhos te levou. Poema retirado de SONETOS de Luís de Camões. Obra disponível para download em Domínio Público (SONETOS) . Leia também ... Busque amor novas artes, novo engenho para mater-me Quem diz que amor é falso Sete anos de pastor Jacob servia

COMPARAÇÃO (Euclides da Cunha)

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Estrelas são mundos "Eu sou fraca e pequena..." Tu me disseste um dia. E em teu lábio sorria Uma dor tão serena, Que em mim se refletia Amargamente amena, A encantadora pena Quem em teus olhos fulgia. Mas esta mágoa, o tê-la É um engano profundo. Faze por esquecê-la: Dos céus azuis ao fundo É bem pequena a estrela... E no entretanto _ é um mundo! Poema extraído de Ondas e Outros Poemas Esparsos, de Euclides da Cunha. Obra disponível para download em Domínio Público EC . Veja também outros poemas de Euclides da Cunha ... Página vazia Há nos teus olhos escuros

Mascarados (Cora Coralina)

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Saiu o Semeador a semear Semeou o dia todo e a noite o apanhou ainda com as mãos cheias de sementes. Ele semeava tranqüilo sem pensar na colheita porque muito tinha colhido do que outros semearam. Jovem, seja você esse semeador Semeia com otimismo Semeia com idealismo as sementes vivas da Paz e da Justiça. Cora Coralina por Lézio Júnior Leia Também ... Conclusões de Aninha de Cora Coralina Cora Coralina -JornalMulier