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Mostrando postagens de 2014

O poeta (Mario Quintana)

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Venho do fundo das Eras, Quando o mundo mal nascia, Sou tão antigo e tão novo Como a luz de cada dia. Leia outros poemas de Mário Quintana .. O descobridor Bilhete O silêncio A viagem

Eu que não amo você (Engenheiros do Hawaii)

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Eu que não fumo queria um cigarro Eu que não amo você Envelheci dez anos ou mais nesse último mês Senti saudade, vontade de voltar Fazer a coisa certa: aqui é o meu lugar Mas, sabe como é difícil encontrar A palavra certa, a hora certa de voltar A porta aberta, a hora certa de chegar

Velhas árvores (Olavo Bilac)

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Velhas árvores Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores novas, mais amigas: Tanto mais belas quanto mais antigas, Vencedoras da idade e das procelas... O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas Vivem, livres de fomes e fadigas; E em seus galhos abrigam-se as cantigas E os amores das aves tagarelas. Não choremos, amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo”! envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem: Na glória da alegria e da bondade, Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem!

Provocações (Luis Fernando Veríssimo)

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A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão. A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso. Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz. Foram lhe provocando por toda a vida. Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça. Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme. Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Par

Cantilena (Olavo Bilac)

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Céu estrelado por Babak Tafreshi Quando as estrelas surgem na tarde, surge a [esperança... Toda alma triste no seu desgosto sonha um Messias: Quem sabe? o acaso, na sorte esquiva, traz: a mudança E enche de mundos as existências que eram vazias! Quando as estrelas brilham mais vivas, brilha a esperança... Os olhos fulgem; loucas, ensaiam as asas frias: Tantos amores há pela terra, que a mão alcança! E há tantos astros, com outras vidas, para outros dias! Mas, de asas fracas, baixando os olhos, o sonho cansa; No céu e na alma, cerram-se as brumas, gelam as luzes: Quando as estrelas tremem de frio, treme a esperança... Tempo, o delírio da mocidade não reproduzes! Dorme o passado: quantas saudades, e quantas cruzes! Quando as estrelas morrem na aurora, morre a esperança... Poema extraído do livro Tarde de  Olavo Bilac  disponível para download em  Domínio Público (Tarde) .

Escárnio perfumado (Cruz e Sousa)

Quando no enleio De receber umas notícias tuas, Vou-me ao correio, Que é lá no fim da mais cruel das ruas, Vendo tão fartas, D'uma fartura que ninguém colige, As mãos dos outros, de jornais e cartas E as minhas, nuas - isso dói, me aflige... E em tom de mofa, Julgo que tudo me escarnece, apoda, Ri, me apostrofa, Pois fico só e cabisbaixo, inerme, A noite andar-me na cabeça, em roda, Mais humilhado que um mendigo, um verme...

A Escravidão (Tobias Barreto)

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Se Deus é quem deixa o mundo Sob o peso que o oprime, Se ele consente esse crime, Que se chama a escravidão, Para fazer homens livres, Para arrancá-los do abismo, Existe um patriotismo Maior que a religião. Se não lhe importa o escravo Que a seus pés queixas deponha, Cobrindo assim de vergonha A face dos anjos seus, Em seu delírio inefável, Praticando a caridade, Nesta hora a mocidade Corrige o erro de Deus!... Tobias Barreto

Desejo (Hora do Delírio) - Junqueira Freire

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O Peregrino Sobre o Mar de Névoas. Pintura: Caspar David Friedrich Se além dos mundos esse inferno existe, Essa pátria de horrores, Onde habitam os tétricos tormentos, As inefáveis dores; Se ali se sente o que jamais na vida O desespero inspira: Se o suplício maior, que a mente finge, A mente ali respira; Se é de compacta, de infinita brasa O solo que se pisa: Se é fogo, e fumo, e súlfur, e terrores Tudo que ali se visa;

MAR PORTUGUÊS (Fernando Pessoa)

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Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Pintura a óleo de Carlos Alberto Santos Poema extraído de Mensagem de Fernando Pessoa. Disponível para download em Domínio Público . Leia outros poemas de Fernando Pessoa Todas as Cartas de Amor são Ridículas Agora que sinto amor Sou um guardador de rebanhos Liberdade

UM (José Neres)

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Mais de mil sonetos falam de amor, Dez mil idolatram a solidão, Mas estes meus têm outro sabor, Sabor de fome medo e podridão. Os meus versos dão muito mais valor Às lágrimas suadas pela mão De um pobre e sofrido trabalhador Que às gotas perfumadas da paixão Eu não posso cantar sobre uma flor Se, no mesmo jardim, no mesmo chão, O que mais brota é dor e aflição Eu, como posso escrever sobre amor Se neste momento co’exatidão Um irmão, sem pena, mata a outro irmão. Negra Rosa & Outros Poemas Poema extraído de Negra Rosa & Outros Poemas - José Neres Obra disponível em  Domínio Público .

A UM MENINO DE RUA (José Neres)

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Menininho triste Triste de tanto sofrer Será que nunca viste O sol cedo nascer? Garoto cor de neve De neve negra e quente A alguém você deve A tristeza de ser gente. Menino que passa fome Fome de saber Aprende a ler teu nome Para nunca dele esquecer. Menino de Rua Poema extraído de Negra Rosa & Outros Poemas - José Neres Obra disponível em Domínio Público .

Conclusões de Aninha (Cora Coralina)

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Cora Coralina Estavam ali parados. Marido e mulher. Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça tímida, humilde, sofrida. Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro. Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

Soneto da Fidelidade (Vinicius de Moraes)

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De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento E assim quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa lhe dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure Foto de Nathan Fertig

Quando Vier a Primavera (Fernando Pessoa)

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Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã, Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é. — Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa em Poemas Inconjuntos Livro disponível para download em Domínio Público (Poemas Inconjuntos). www.domini

TECENDO A MANHÃ (João Cabral de Melo Neto)

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Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro: e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão. Tecendo a manhã

Certas Palavras (Carlos Drummond de Andrade)

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Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos. E tudo é proibido. Então, falamos. Drummond Veja também outros poemas de Drummond ... Procura da poesia Consolo na praia Resíduo ​ Congresso internacional do medo ​ O ano passado

O SEU SANTO NOME (Drummond)

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Não facilite com a palavra amor. Não a jogue no espaço, bolha de sabão. Não se inebrie com o seu engalanado som. Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro). Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra. Não a pronuncie. Arte: Alanna Risse Veja também outros poemas de Drummond ... ​Consolo na praia ​Certas palavras Sentimento do mundo ​ Procura da Poesia