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Mostrando postagens de Outubro, 2013

Contagem regressiva (Ana Cristina César)

Acreditei que se amasse de novo esqueceria outros pelo menos três a quatro rostos que amei Num delírio de arquivística organizei a memória em alfabetos como quem conta carneiros e amansa no entanto flanco aberto não esqueço e amo em ti os outros rostos Ana Cristina César , in “ Inéditos e Dispersos ”. Ana Cristina César (1952-1983) Leia outros poemas de Ana Cristina César ... Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos A ponto de partir

SONETO (Machado de Assis)

(Pela inauguração do Asilo de Órfãos de Campinas) Recolhei, recolhei essas coitadas, Tristes crianças, desbotadas flores, Que a morte despojou dos seus cultores E pendem já das hastes maltratadas. Trocai, trocai as fomes e os horrores, Os desprezos e as ríspidas noitadas Pelos afagos dos peitos protetores, Ensinai-lhes a amar e a ser amadas. E quando a obra que encetais agora Avultar, prosperar, subir ao cume, Tornada em sol esta ridente aurora, Sentireis ao calor do grande lume Tanta ventura, que, se fordes tristes, Jubilareis da obra que cumpristes. Asylo de Orphãos de Campinas  Veja também outros poemas de Machado de Assis ... Vai-te A Carolina ERRO Suave Mari Magno ​

O ano passado (Drummond)

Drummond O ano passado não passou, continua incessantemente. Em vão marco novos encontros. Todos são encontros passados. As ruas, sempre do ano passado, e as pessoas, também as mesmas, com iguais gestos e falas. O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer, de sol pleno, de descambar como no repetidíssimo ano passado.

AS DUAS FLORES (Castro Alves)

São duas flores unidas, São duas rosas nascidas Talvez no mesmo arrebol, Vivendo no mesmo galho, Da mesma gota de orvalho, Do mesmo raio de sol. Duas flores Unidas, bem como as penas Das duas asas pequenas De um passarinho do céu... Como um casal de rolinhas, Como a tribo de andorinhas Da tarde no frouxo véu. Unidas, bem como os prantos, Que em parelha descem tantos Das profundezas do olhar... Como o suspiro e o desgosto, Como as covinhas do rosto, Como as estrelas do mar. Unidas... Ai quem pudera Numa eterna primavera Viver, qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida Na rama verde e florida, Na verde rama do amor!

Erro de português (Oswald de Andrade)

Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português "O Descobrimento do Brasil" Cândido Portinari

A bunda, que engraçada (Carlos Drummond de Andrade)

A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora – murmura a bunda – esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda redunda.

SONETO (Augusto dos Anjos)

Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos. 2 fevereiro 1911. Agregado infeliz de sangue e cal, Fruto rubro de carne agonizante, Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial, Que poder embriológico fatal Destruiu, com a sinergia de um gigante, Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância, Em que lugar irás passar a infância, Tragicamente anônimo, a feder?! Ah! Possas tu dormir, feto esquecido, Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! Augusto dos Anjos Leia também ... O morcego Idealismo O martírio do artista Versos Íntimos

O MARTÍRIO DO ARTISTA (Augusto dos Anjos)

Jackson Pollock Arte ingrata! E conquanto, em desalento, A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda, Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento, Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento!

O descobridor (Mario Quintana)

Ah, essa gente que me encomenda um poema com tema... Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro, o que inquietamente procuro em minhas escavações do ar? Nesse futuro, tão imperfeito, vão dar, desde o mais inocente nascituro, suntuosas princesas mortas há milênios, palavras desconhecidas mas com todas as letras [misteriosamente acesas palavras quotidianas enfim libertas de qualquer objeto

A viagem (Mario Quintana)

Quando passei o Cabo das Tormentas As sereias seguiram-me... E o seu canto Nunca fora, meu Deus, tão aliciante... Até acreditei, num breve instante, Que por algum milagre a nau transviada Viesse acaso sonâmbula voltando Às praias luminosas da alvorada... Mas, ai de mim, esses enganos são Pesadelos de luz! Antes o escuro, o sossegado Sono... Mas uma voz: — Que dizes, nosso amor? Ainda que nos escutes a teu lado, Nós cantamos sempre no Futuro! Ramon Bruin Poema extraído de Preparativos de viagem de Mario Quintana. Leia outros poemas de Mário Quintana .. Bilhete O descobridor Poema O silêncio