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Mostrando postagens de Julho, 2013

Romance XXX ou do riso dos tropeiros (Cecília Meireles)

Passou um louco, montado. Passou um louco, a falar que isto era uma terra grande e que a ia libertar. Passou num macho rosilho. E, sem parar o animal, falava contra o governo, contra as leis de Portugal. Nós somos simples tropeiros, por estes campos a andar. O louco já deve ir longe: mas inda o vemos pelo ar.... Mostrando os montes, dizia que isto é terra sem igual, que debaixo destes pastos e tudo rico metal... - Por isso é que assim nos rimos, que nos rimos sem parar, pois há gente que não leva a cabeça no lugar. Ah! se conosco estivesse o capitão general! E também nos disse o louco: “Levai bem pólvora e sal!”. Por isso que rimos tanto... Mas, quando ele aqui tornar, teremos a terra livre, - salvo se, por um desar, o metem num enxovia, e, por sentença real, o fazem subir à forca, para morte natural. ​Veja também outros poemas de Cecília Meireles ... ​Marcha E o meu caminho começa ... Romance XIX ou dos maus presságios (Cecília Meireles)

A Hora Íntima (Vinicius de Moraes)

Quem pagará o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral Dirá de mim: - Nunca fez mal... Quem, bêbedo, chorará em voz alta De não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas No meu túmulo de poeta? Quem jogará timidamente Na terra um grão de semente? Quem elevará o olhar covarde Até a estrela da tarde? Quem me dirá palavras mágicas Capazes de empalidecer o mármore? Quem, oculta em véus escuros Se crucificará nos muros? Quem, macerada de desgosto Sorrirá: - Rei morto, rei posto... Quantas, debruçadas sobre o báratro Sentirão as dores do parto? Qual a que, branca de receio Tocará o botão do seio? Quem, louca, se jogará de bruços A soluçar tantos soluços Que há de despertar receios? Quantos, os maxilares contraídos O sangue a pulsar nas cicatrizes Dirão: - Foi um doido amigo... Quem, criança, olhando a terra Ao ver movimentar-se um verme Observará um ar de critéri

SONETO DE SEPARAÇÃO (Vinicius de Moraes)

De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. Separação