Postagens

Mostrando postagens de Maio, 2013

Os Ombros Suportam o Mundo

Imagem
Carlos Drummond de Andrade Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos.

BEM NO FUNDO (Leminski)

Imagem
no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas. Leminski Outros poemas de Leminski .. Quem sou eu pra falar com deus? Mal rabisco ... HAI KAI Releituras - Leminski

Se Morre de Amor (Gonçalves Dias)

Imagem
Tarde chuvosa, pintura a óleo de Leonid Afremov Se se morre de amor! — Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surpreende De ruidoso sarau entre os festejos; Quando luzes, calor, orquestra e flores Assomos de prazer nos raiam n'alma, Que embelezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança! Simpáticas feições, cintura breve, Graciosa postura, porte airoso, Uma fita, uma flor entre os cabelos, Um quê mal definido, acaso podem Num engano d'amor arrebatar-nos. Mas isso amor não é; isso é delírio, Devaneio, ilusão, que se esvaece. Ao som final da orquestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes no morrer despedem: Se outro nome lhe dão, se amor o chamam, D'amor igual ninguém sucumbe à perda. Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração — abertos Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos, D'altas virtudes, té capaz de crimes! Compr'ender o infinito, a imensidade, E a natureza e Deus; gostar dos campos, D'aves, flores

CANÇÃO DO EXÍLIO (Gonçalves Dias)

Imagem
Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Mal rabisco ...

Tudo o que eu faço alguém em mim que eu desprezo sempre acha o máximo. Mal rabisco, não dá mais para mudar nada. Já é um clássico. [Paulo Leminski] Outros poemas de Leminski .. Quem sou eu pra falar com deus? HAI KAI Bem no Fundo Releituras - Leminski

Retrato (Cecília Meireles)

Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face?

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS (Manoel de Barros)

Imagem
Ilustração Martha Barros Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo. Entendo bem o sotaque das águas. dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que as dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor os meus silêncios." Poema retirado da obra Memórias Inventadas de Manoel de Barros .

João e Maria (Chico Buarque)

Imagem
Agora eu era o herói E o meu cavalo só falava inglês A noiva do cowboy Era você além das outras três Eu enfrentava os batalhões Os alemães e seus canhões Guardava o meu bodoque E ensaiava o rock para as matinês

13 de Maio - A Mentira da Abolição

Imagem
Dona Isabel (Mestre Toni Vargas) Dona Isabel que história é essa Dona Isabel que história é essa de ter feito abolição De ser princesa boazinha que libertou a escravidão To cansado de conversa, to cansado de ilusão Abolição se fez com sangue que inundava este país Que o negro transformou em luta, Cansado de ser infeliz Abolição se fez bem antes e ainda há por se fazer agora Com a verdade da favela, E não com a mentira da escola Dona Isabel chegou a hora De se acabar com essa maldade De se ensinar aos nossos filhos, O quanto custa a liberdade Viva Zumbi nosso rei negro, Que fez-se herói lá em Palmares Viva a cultura desse povo, A liberdade verdadeira Que já corria nos Quilombos, E já jogava capoeira Iêêê viva Zumbi...

Navio Negreiro (Castro Alves)

Imagem
Navio Negreiro por Rugendas [...] Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!... São os filhos do deserto, Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão. . . São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe... bem longe vêm... Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços, N'alma — lágrimas e fel... Como Agar sofrendo tanto, Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael.

Pedaço de Mim (Chico Buarque)

Imagem
Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar

A morte chega cedo (Fernando Pessoa)

Imagem
A morte chega cedo, Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida. O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou. E tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto. Poema do Livro Cancioneiro de Fernando Pessoa. A morte chega cedo