Pular para o conteúdo principal

Funeral de um lavrador (Chico Buarque)






TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE  DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O   LEVARAM AO CEMITÉRIO

—— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
—— é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
—— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
—— é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
—— é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
—— é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Trecho de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto.


Mais sobre a obra ...

Morte e Vida Severina em Desenho Animado

E-book Morte e Vida Severina em Biblioteca Digital PUC Campinas

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Se Eu Fosse Eu (Clarice Lispector)

A Crônica “ Se Eu Fosse Eu ” de Clarice Lispector foi publicada em 30 de novembro de 1968 pelo Jornal do Brasil. Esta e outras cronicas podem ser encontradas no livro A descoberta do Mundo , que reúne as crônicas que ela escreveu para o Jornal do Brasil no período de 1967 a 1973. SE EU FOSSE EU “Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se e

Erro de português (Oswald de Andrade)

O Descobrimento do Brasil por Cândido Portinari Erro de português Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português — Oswald de Andrade

MAR PORTUGUÊS (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Pintura a óleo de Carlos Alberto Santos Poema extraído de Mensagem de Fernando Pessoa. Disponível para download em Domínio Público . Leia outros poemas de Fernando Pessoa Todas as Cartas de Amor são Ridículas Agora que sinto amor Sou um guardador de rebanhos Liberdade