Pular para o conteúdo principal

Tabacaria (Fernando Pessoa)

 Costa Pinheiro, "Fernando Pessoa - Heterônimos" Óleo sobre tela (1978) (Fonte)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.



Postagens mais visitadas deste blog

Erro de português (Oswald de Andrade)

Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português "O Descobrimento do Brasil" Cândido Portinari

“— Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu.”

O Ateneu é o romance mais conhecido do escritor Raul Pompeia (1863-1895). É uma prosa poética, contada em primeira pessoa pelo personagem Sérgio, sobre sua a traumática formação dentro de um internato privado no Rio de Janeiro (o Ateneu).A sociedade da época reprimia afetividade e ternura dos homens (não tão distante dos dias atuais) de forma que as relações entre homens e mulheres e mesmo as relações entre homens era bastante prejudicada. Se de algum modo o homem vivenciar ternura por outro homem, o mesmo será então tachado de homossexual, ''mariquinhas''. O que, na época, era uma grande desonra pública. Em o Ateneu, Sérgio descreve o amigo Egbert com bastante afetividade, de uma maneira fraternal. Como ilustrado no seguinte trecho do livro: Egbert merecia-me ternuras de irmão mais velho. Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa, tinha os cabelos castanhos entremeados de louro, uma alteração exótica na pronúncia, olhos azuis de estrias cinze

Se Eu Fosse Eu (Clarice Lispector)

A Crônica “ Se Eu Fosse Eu ” de Clarice Lispector foi publicada em 30 de novembro de 1968 pelo Jornal do Brasil. Esta e outras cronicas podem ser encontradas no livro A descoberta do Mundo , que reúne as crônicas que ela escreveu para o Jornal do Brasil no período de 1967 a 1973. SE EU FOSSE EU “Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se e