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Mostrando postagens de 2013

Busque Amor novas artes, novo engenho, para matar-me

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Busque Amor novas artes, novo engenho, para matar-me, e novas esquivanças; que não pode tirar-me as esperanças, que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, andando em bravo mar, perdido o lenho.

Quem diz que Amor é falso (Luís Vaz de Camões)

Quem diz que Amor é falso ou enganoso, ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, sem falta lhe terá bem merecido que lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce e é piadoso. Quem o contrário diz não seja crido; seja por cego e apaixonado tido, e aos homens, e inda aos deuses, odioso. Se males faz Amor, em mi se veem; em mi mostrando todo o seu rigor, ao mundo quis mostrar quanto podia. Mas todas suas iras são de amor; todos estes seus males são um bem, que eu por todo outro bem não trocaria. Poema extraído de Sonetos e Outros Poemas de Luís Camões. Leia também ... Busque amor novas artes, novo engenho para mater-me Alma minha gentil, que te partiste Sete anos de pastor Jacob servia

Romance VII ou do negro das Catas (Cecília Meireles)

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Do negro nas catas Já se ouve cantar o negro, mas inda vem longe o dia. Será pela estrela d'alva, com seus raios de alegria? Será por algum diamante a arder, na aurora tão fria? Já se ouve cantar o negro, pela agreste imensidão. Seus donos estão dormindo: quem sabe o que sonharão! Mas os feitores espiam, de olhos pregados no chão. Já se ouve cantar o negro. Que saudade, pela serra! Os corpos, naquelas águas, - as almas, por longe terra. Em cada vida de escravo, que surda, perdida guerra!

Herança (Cecília Meireles)

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Eu vim de infinitos caminhos, e os meus sonhos choveram lúcido pranto pelo chão. Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos, essa vida, que era tão viva, tão fecunda, porque vinha de um coração? E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos, do pranto que caiu dos meus olhos passados, que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão? Cecília Meireles, desenho de Arpad Szènes

E o meu caminho começa ...

Não perguntavam por mim, mas deram por minha falta. Na trama da minha ausência, inventaram tela falsa. Como eu andava tão longe, numa aventura tão larga, entregue à metamorfose do tempo fluido das águas; como descera sozinho os degraus da espuma clara, e o meu corpo era silêncio e era mistério minha alma - - cantou-se a fábula incerta, segunda a linguagem da harpa: mas a música é uma selva de sal e areia na praia, um arabesco de cinza que ao vento do mar se apaga.

Última Página (Olavo Bilac)

Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos Numa palpitação de flores e de ninhos. Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos (Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos. Verão. (Lembras-te, Dulce?) À beira-mar, sozinhos. Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos; E o outono desfolhava os roseirais vizinhos, Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos... Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos, Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos, (Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor... Carne, que queres mais? Coração, que mais queres? Passam as estações e passam as mulheres... E eu tenho amado tanto! E não conheço o Amor!

Dualismo (Olavo Bilac)

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Olavo Bilac Não és bom, nem és mau: és triste e humano... Vives ansiando, em maldições e preces, Como se, a arder, no coração tivesses O tumulto e o clamor de um largo oceano. Pobre, no bem como no mal, padeces; E, rolando num vórtice vesano, Oscilas entre a crença e o desengano, Entre esperanças e desinteresses. Capaz de horrores e de ações sublimes, Não ficas das virtudes satisfeito, Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: E, no perpétuo ideal que te devora, Residem juntamente no teu peito Um demônio que ruge e um deus que chora.

Poema (Mario Quintana)

Oh! aquele menininho que dizia “Fessora, eu posso ir lá fora?” Mas apenas ficava um momento Bebendo o vento azul... Agora não preciso pedir licença a ninguém. Mesmo porque não existe paisagem lá fora: Somente cimento. O vento não mais me fareja a face como um cão [amigo... Mas o azul irreversível persiste em meus olhos. Mais poemas de Mário Quintana .. O poeta A viagem O descobridor O silêncio

PÁGINA VAZIA (Euclides da Cunha)

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Quem volta da região assustadora De onde eu venho, revendo, inda na mente, Muitas cenas do drama comovente De guerra despiedada e aterradora. Certo não pode ter uma sonora Estrofe ou canto ou ditirambo ardente Que possa figurar dignamente Em vosso álbum gentil, minha senhora. E quando, com fidalga gentileza Cedestes-me esta página, a nobreza De nossa alma iludiu-vos, não previstes Que quem mais tarde, nesta folha lesse Perguntaria: "Que autor é esse De uns versos tão mal feitos e tão tristes?" 1897 Veja também outros poemas de Euclides da Cunha ... Há nos teus olhos escuros Comparação

Sete anos de pastor Jacob servia

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William Dyce - O encontro de Jacob e Raquel Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Contagem regressiva (Ana Cristina César)

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Acreditei que se amasse de novo esqueceria outros pelo menos três a quatro rostos que amei Num delírio de arquivística organizei a memória em alfabetos como quem conta carneiros e amansa no entanto flanco aberto não esqueço e amo em ti os outros rostos Ana Cristina César , in “ Inéditos e Dispersos ”. Ana Cristina César (1952-1983) Leia outros poemas de Ana Cristina César ... Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos A ponto de partir

SONETO (Machado de Assis)

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(Pela inauguração do Asilo de Órfãos de Campinas) Recolhei, recolhei essas coitadas, Tristes crianças, desbotadas flores, Que a morte despojou dos seus cultores E pendem já das hastes maltratadas. Trocai, trocai as fomes e os horrores, Os desprezos e as ríspidas noitadas Pelos afagos dos peitos protetores, Ensinai-lhes a amar e a ser amadas. E quando a obra que encetais agora Avultar, prosperar, subir ao cume, Tornada em sol esta ridente aurora, Sentireis ao calor do grande lume Tanta ventura, que, se fordes tristes, Jubilareis da obra que cumpristes. Asylo de Orphãos de Campinas  Veja também outros poemas de Machado de Assis ... Vai-te A Carolina ERRO Suave Mari Magno ​

O ano passado (Drummond)

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Drummond O ano passado não passou, continua incessantemente. Em vão marco novos encontros. Todos são encontros passados. As ruas, sempre do ano passado, e as pessoas, também as mesmas, com iguais gestos e falas. O céu tem exatamente sabidos tons de amanhecer, de sol pleno, de descambar como no repetidíssimo ano passado.

AS DUAS FLORES (Castro Alves)

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São duas flores unidas, São duas rosas nascidas Talvez no mesmo arrebol, Vivendo no mesmo galho, Da mesma gota de orvalho, Do mesmo raio de sol. Duas flores Unidas, bem como as penas Das duas asas pequenas De um passarinho do céu... Como um casal de rolinhas, Como a tribo de andorinhas Da tarde no frouxo véu. Unidas, bem como os prantos, Que em parelha descem tantos Das profundezas do olhar... Como o suspiro e o desgosto, Como as covinhas do rosto, Como as estrelas do mar. Unidas... Ai quem pudera Numa eterna primavera Viver, qual vive esta flor. Juntar as rosas da vida Na rama verde e florida, Na verde rama do amor!

Erro de português (Oswald de Andrade)

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O Descobrimento do Brasil por Cândido Portinari Erro de português Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português — Oswald de Andrade

A bunda, que engraçada (Carlos Drummond de Andrade)

A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora – murmura a bunda – esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda redunda.

SONETO (Augusto dos Anjos)

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Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos. 2 fevereiro 1911. Agregado infeliz de sangue e cal, Fruto rubro de carne agonizante, Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial, Que poder embriológico fatal Destruiu, com a sinergia de um gigante, Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância, Em que lugar irás passar a infância, Tragicamente anônimo, a feder?! Ah! Possas tu dormir, feto esquecido, Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! Augusto dos Anjos Leia também ... O morcego Idealismo O martírio do artista Versos Íntimos

O MARTÍRIO DO ARTISTA (Augusto dos Anjos)

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Jackson Pollock Arte ingrata! E conquanto, em desalento, A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda, Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento, Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento!

O descobridor (Mario Quintana)

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Ah, essa gente que me encomenda um poema com tema... Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro, o que inquietamente procuro em minhas escavações do ar? Nesse futuro, tão imperfeito, vão dar, desde o mais inocente nascituro, suntuosas princesas mortas há milênios, palavras desconhecidas mas com todas as letras [misteriosamente acesas palavras quotidianas enfim libertas de qualquer objeto

A viagem (Mario Quintana)

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Quando passei o Cabo das Tormentas As sereias seguiram-me... E o seu canto Nunca fora, meu Deus, tão aliciante... Até acreditei, num breve instante, Que por algum milagre a nau transviada Viesse acaso sonâmbula voltando Às praias luminosas da alvorada... Mas, ai de mim, esses enganos são Pesadelos de luz! Antes o escuro, o sossegado Sono... Mas uma voz: — Que dizes, nosso amor? Ainda que nos escutes a teu lado, Nós cantamos sempre no Futuro! Ramon Bruin Poema extraído de Preparativos de viagem de Mario Quintana. Leia outros poemas de Mário Quintana .. Bilhete O descobridor Poema O silêncio

INFÂNCIA (Carlos Drummond de Andrade)

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom.

CIDADEZINHA QUALQUER (Carlos Drummond de Andrade)

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Casas entre bananeiras Mulheres entre laranjeiras Pomar amor cantar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar. Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus. Morro da Favela - Tarsila do Amaral, 1924

O silêncio (Mario Quintana)

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Há um grande silêncio que está sempre à escuta... E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for, desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje até a tua dúvida metafísica, Hamleto! E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala o silêncio escuta... e cala. Trecho do livro Esconderijos do tempo de Mario Quintana . Fonte:  Mesquita Leia outros poemas de Mário Quintana .. Poema A viagem Se eu fosse um padre O poeta

Romance XXX ou do riso dos tropeiros (Cecília Meireles)

Passou um louco, montado. Passou um louco, a falar que isto era uma terra grande e que a ia libertar. Passou num macho rosilho. E, sem parar o animal, falava contra o governo, contra as leis de Portugal. Nós somos simples tropeiros, por estes campos a andar. O louco já deve ir longe: mas inda o vemos pelo ar.... Mostrando os montes, dizia que isto é terra sem igual, que debaixo destes pastos e tudo rico metal... - Por isso é que assim nos rimos, que nos rimos sem parar, pois há gente que não leva a cabeça no lugar. Ah! se conosco estivesse o capitão general! E também nos disse o louco: “Levai bem pólvora e sal!”. Por isso que rimos tanto... Mas, quando ele aqui tornar, teremos a terra livre, - salvo se, por um desar, o metem num enxovia, e, por sentença real, o fazem subir à forca, para morte natural. ​Veja também outros poemas de Cecília Meireles ... ​Marcha E o meu caminho começa ... Romance XIX ou dos maus presságios (Cecília Meireles)

A Hora Íntima (Vinicius de Moraes)

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Quem pagará o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral Dirá de mim: - Nunca fez mal... Quem, bêbedo, chorará em voz alta De não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas No meu túmulo de poeta? Quem jogará timidamente Na terra um grão de semente? Quem elevará o olhar covarde Até a estrela da tarde? Quem me dirá palavras mágicas Capazes de empalidecer o mármore? Quem, oculta em véus escuros Se crucificará nos muros? Quem, macerada de desgosto Sorrirá: - Rei morto, rei posto... Quantas, debruçadas sobre o báratro Sentirão as dores do parto? Qual a que, branca de receio Tocará o botão do seio? Quem, louca, se jogará de bruços A soluçar tantos soluços Que há de despertar receios? Quantos, os maxilares contraídos O sangue a pulsar nas cicatrizes Dirão: - Foi um doido amigo... Quem, criança, olhando a terra Ao ver movimentar-se um verme Observará um ar de critéri

SONETO DE SEPARAÇÃO (Vinicius de Moraes)

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De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. Separação

Agora que sinto amor

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Agora que sinto amor Tenho interesse nos perfumes. Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova. Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia. São coisas que se sabem por fora. Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça. Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira. Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver. Poema de Fernando Pessoa extraído de O Pastor Amoroso disponível em Domínio Público . Spring Flowers Leia outros poemas de Fernando Pessoa Poema em linha reta Tão cedo passa tudo quanto passa! Agora que sinto amor Sou um guardador de rebanhos

Anjo (Castro Alves)

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"AI! QUE VALE a vingança, pobre amigo, Se na vingança a honra não se lava?... O sangue é rubro, a virgindade é branca — O sangue aumenta da vergonha a bava. "Se nós fomos somente desgraçados, Para que miseráveis nos fazermos? Deportados da terra assim perdemos De além da campa as regiões sem termos... "Ai! não manches no crime a tua vida, Meu irmão, meu amigo, meu esposo!... Seria negro o amor de uma perdida Nos braços a sorrir de um criminoso!..." Castro Alves Poema extraído da obra A Cachoeira de Paulo Afonso de Castro Alves. Disponível em domínio publico ( A cachoeira de Paulo Afonso )

Ainda que mal (Drummond)

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Drummond Ainda que mal pergunte, ainda que mal respondas; ainda que mal te entenda, ainda que mal repitas; ainda que mal insista, ainda que mal desculpes; ainda que mal me exprima, ainda que mal me julgues; ainda que mal me mostre, ainda que mal me vejas; ainda que mal te encare, ainda que mal te furtes; ainda que mal te siga, ainda que mal te voltes; ainda que mal te ame, ainda que mal o saibas; ainda que mal te agarre, ainda que mal te mates; ainda assim te pergunto e me queimando em teu seio, me salvo e me dano: amor. Veja também outros poemas de Drummond ... ​Consolo na praia ​Certas palavras ​O seu santo nome Congresso internacional do medo ​

QUADRILHA (Carlos Drummond de Andrade)

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João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. Quadrilha Veja também outros poemas de Drummond ... Procura da poesia Sentimento do mundo Resíduo ​ Congresso internacional do medo ​ O ano passado ​

CANÇÃO DO TAMOIO (Antonio Gonçalves Dias)

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I Não chores, meu filho; Não chores, que a vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos Só pode exaltar.

SOFRIMENTO (Gonçalves Dias)

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Gonçalves Dias Meu Deus, Senhor meu Deus, o que há no mundo Que não seja sofrer? O homem nasce, e vive um só instante, E sofre até morrer! A flor ao menos, nesse breve espaço Do seu doce viver, Encanta os ares com celeste aroma, Querida até morrer. É breve o romper d'alva, mas ao menos Traz consigo prazer; E o homem nasce e vive um só instante: E sofre até morrer!

Os Ombros Suportam o Mundo

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Carlos Drummond de Andrade Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos.

BEM NO FUNDO (Leminski)

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no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas. Leminski Outros poemas de Leminski .. Quem sou eu pra falar com deus? Mal rabisco ... HAI KAI Releituras - Leminski

Se Morre de Amor (Gonçalves Dias)

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Tarde chuvosa, pintura a óleo de Leonid Afremov Se se morre de amor! — Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surpreende De ruidoso sarau entre os festejos; Quando luzes, calor, orquestra e flores Assomos de prazer nos raiam n'alma, Que embelezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança! Simpáticas feições, cintura breve, Graciosa postura, porte airoso, Uma fita, uma flor entre os cabelos, Um quê mal definido, acaso podem Num engano d'amor arrebatar-nos. Mas isso amor não é; isso é delírio, Devaneio, ilusão, que se esvaece. Ao som final da orquestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes no morrer despedem: Se outro nome lhe dão, se amor o chamam, D'amor igual ninguém sucumbe à perda. Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração — abertos Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos, D'altas virtudes, té capaz de crimes! Compr'ender o infinito, a imensidade, E a natureza e Deus; gostar dos campos, D'aves, flores

CANÇÃO DO EXÍLIO (Gonçalves Dias)

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Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Mal rabisco ...

Tudo o que eu faço alguém em mim que eu desprezo sempre acha o máximo. Mal rabisco, não dá mais para mudar nada. Já é um clássico. [Paulo Leminski] Outros poemas de Leminski .. Quem sou eu pra falar com deus? HAI KAI Bem no Fundo Releituras - Leminski

Retrato (Cecília Meireles)

Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face?

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS (Manoel de Barros)

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Ilustração Martha Barros Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo. Entendo bem o sotaque das águas. dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que as dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor os meus silêncios." Poema retirado da obra Memórias Inventadas de Manoel de Barros .

João e Maria (Chico Buarque)

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Agora eu era o herói E o meu cavalo só falava inglês A noiva do cowboy Era você além das outras três Eu enfrentava os batalhões Os alemães e seus canhões Guardava o meu bodoque E ensaiava o rock para as matinês

13 de Maio - A Mentira da Abolição

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Dona Isabel (Mestre Toni Vargas) Dona Isabel que história é essa Dona Isabel que história é essa de ter feito abolição De ser princesa boazinha que libertou a escravidão To cansado de conversa, to cansado de ilusão Abolição se fez com sangue que inundava este país Que o negro transformou em luta, Cansado de ser infeliz Abolição se fez bem antes e ainda há por se fazer agora Com a verdade da favela, E não com a mentira da escola Dona Isabel chegou a hora De se acabar com essa maldade De se ensinar aos nossos filhos, O quanto custa a liberdade Viva Zumbi nosso rei negro, Que fez-se herói lá em Palmares Viva a cultura desse povo, A liberdade verdadeira Que já corria nos Quilombos, E já jogava capoeira Iêêê viva Zumbi...

Navio Negreiro (Castro Alves)

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Navio Negreiro por Rugendas [...] Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!... São os filhos do deserto, Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão. . . São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe... bem longe vêm... Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços, N'alma — lágrimas e fel... Como Agar sofrendo tanto, Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael.

Pedaço de Mim (Chico Buarque)

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Oh, pedaço de mim Oh, metade afastada de mim Leva o teu olhar Que a saudade é o pior tormento É pior do que o esquecimento É pior do que se entrevar

A morte chega cedo (Fernando Pessoa)

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A morte chega cedo, Pois breve é toda vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida. O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou. E tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixou aberto. Poema do Livro Cancioneiro de Fernando Pessoa. A morte chega cedo

NÃO COMEREI DA ALFACE A VERDE PÉTALA (Vinicius de Moraes)

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Não comerei da alface a verde pétala Nem da cenoura as hóstias desbotadas Deixarei as pastagens às manadas E a quem mais aprouver fazer dieta.

Como inútil taça cheia (Fernando Pessoa)

Como inútil taça cheia Que ninguém ergue da mesa, Transborda de dor alheia Meu coração sem tristeza. Sonhos de mágoa figura Só para Ter que sentir E assim não tem a amargura Que se temeu a fingir. Ficção num palco sem tábuas Vestida de papel seda Mima uma dança de mágoas Para que nada suceda. Leia outros poemas de Fernando Pessoa Todas as Cartas de Amor são Ridículas Poema em linha reta Agora que sinto amor Mar Português Sou um guardador de rebanhos

Valsinha (Chico Buarque e Vinicius de Moraes)

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Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz. Ouça também ...  ♪ ♫ ♩ ♫   ♬ ♪ ♫ Falando de amor Jõao e Maria ​ ​​ ​Suíte do pescador Os cegos do castelo

Funeral de um lavrador (Chico Buarque)

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TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE  DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O   LEVARAM AO CEMITÉRIO —— Essa cova em que estás, com palmos medida, é a cota menor que tiraste em vida. —— é de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe neste latifúndio. —— Não é cova grande. é cova medida, é a terra que querias ver dividida. —— é uma cova grande para teu pouco defunto, mas estarás mais ancho que estavas no mundo. —— é uma cova grande para teu defunto parco, porém mais que no mundo te sentirás largo. —— é uma cova grande para tua carne pouca, mas a terra dada não se abre a boca. Trecho de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto . Mais sobre a obra ... Morte e Vida Severina em Desenho Animado E-book Morte e Vida Severina em Biblioteca Digital PUC Campinas

Morte e Vida Severina - Em Desenho Animado

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O obra-prima de João Cabral de Melo Neto,  Morte e Vida Severina , foi adaptada para desenho animado pelo cartunista Miguel Falcão. A animação foi feita preservando o texto original da obra. Assista abaixo à animação completa: O desenho narra a dura caminhada de Severino, um retirante nordestino, que migra do sertão para o litoral pernambucano em busca de uma vida melhor. ━  Desde que estou retirando  só a morte vejo ativa,  só a morte deparei  e às vezes até festiva  só a morte tem encontrado  quem pensava encontrar vida,  e o pouco que não foi morte  foi de vida severina  (aquela vida que é menos  vivida que defendida,  e é ainda mais severina  para o homem que retira).  Trecho de Morte e Vida Severina Mais sobre a obra ... E-book Morte e Vida Severina em Biblioteca Digital PUC Campinas Animação Morte e Vida Severina -TV Escola Funeral de um lavrador (Chico Buarque) Cansado da Viagem 

SONETO DA HORA FINAL (Vinicius de Moraes)

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Será assim, amiga: um certo dia Estando nós a contemplar o poente Sentiremos no rosto, de repente O beijo leve de uma aragem fria. Tu me olharás silenciosamente E eu te olharei também, com nostalgia E partiremos, tontos de poesia Para a porta de treva aberta em frente. Ao transpor as fronteiras do Segredo Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo E tu, tranqüila, me dirás: – Sê forte. E como dois antigos namorados Noturnamente triste e enlaçados Nós entraremos nos jardins da morte Fonte: Eden

O VERBO NO INFINITO (Vinicius de Moraes)

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Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar.

Pensamentos extraídos do livro "Do Caderno H" (Mário Quintana)

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Mário Quintana A ARTE DE LER O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria. VENERAÇÃO Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos. A COISA A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita. CARTAZ PARA UMA FEIRA DO LIVRO Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem. Pensamentos extraídos do livro Do Caderno H  de Mário Quintana. Outros poemas de Mário Quintana .. Eu ouço a música Poema Bilhete A viagem O descobridor

Se eu fosse um padre (Mário Quintana)

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Quintana Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões, não falaria em Deus nem no Pecado — muito menos no Anjo Rebelado e os encantos das suas seduções, não citaria santos e profetas: nada das suas celestiais promessas ou das suas terríveis maldições... Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Se eu morresse amanhã (Alvares de Azevedo)

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Se eu morresse amanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã!

Metade (Oswaldo Montenegro)

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Que a força do medo que tenho Não me impeça de ver o que anseio Que a morte de tudo em que acredito Não me tape os ouvidos e a boca Porque metade de mim é o que eu grito Mas a outra metade é silêncio. Que a música que ouço ao longe Seja linda ainda que tristeza Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada Mesmo que distante Porque metade de mim é partida Mas a outra metade é saudade. Que as palavras que eu falo Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor Apenas respeitadas Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos Porque metade de mim é o que ouço Mas a outra metade é o que calo. Que essa minha vontade de ir embora Se transforme na calma e na paz que eu mereço Que essa tensão que me corrói por dentro Seja um dia recompensada Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu ros

O Amor Bate Na Aorta (Carlos Drummond de Andrade)

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Cantiga de amor sem eira nem beira, vira o mundo de cabeça para baixo, suspende a saia das mulheres, tira os óculos dos homens, o amor, seja como for, é o amor. Meu bem, não chores, hoje tem filme de Carlito. O amor bate na porta o amor bate na aorta, fui abrir e me constipei. Cardíaco e melancólico, o amor ronca na horta entre pés de laranjeira entre uvas meio verdes e desejos já maduros.

Tabacaria (Fernando Pessoa)

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 Costa Pinheiro, "Fernando Pessoa - Heterônimos" Óleo sobre tela (1978) ( Fonte ) Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo. que ninguém sabe quem é ( E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Ou isto ou aquilo (Cecília Meireles)

Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares! Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . . e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. ​Veja também outros poemas de Cecília Meireles ... ​Marcha E o meu caminho começa ... Romance XIX ou dos maus presságios (Cecília Meireles) ​Romance VII ou do negro das Catas ​ Herança