Pular para o conteúdo principal

Romance XIX ou dos maus presságios (Cecília Meireles)


A escrava que virou rainha
Zezé Motta em filme Xica da Silva


Acabou-se aquele tempo
do Contratador Fernandes.
Onde estais, Chica da Silva,
cravejada de brilhantes?
Não tinha Santa Ifigênia,
pedras tão bem lapidadas,
por lapidários de Flandres...

Sobre o tempo vem mais tempo,
Mandam sempre os que são grandes:
e é grandeza de ministros
roubar hoje como dantes.
Vão-se as minas nos navios...
Pela terra despojada,
ficam lágrimas e sangue.

Ai, quem se opusera ao tempo,
se houvesse força bastante
para impedir a desgraça
que aumenta de instante a instante!
Tristes donzelas sem dote
choram noivos impossíveis,
em sonhos fora do alcance.

Mas é direção do tempo...
E a vida, em severos lances,
empobrece a quem trabalha
e enriquece os arrogantes
fidalgos e flibusteiros
que reinam mais que a Rainha
por estas minas distantes!


Veja também outros poemas de Cecília Meireles ...

Retrato

E o meu caminho começa ...


​Romance VII ou do negro das Catas

​Romance XXX ou do riso dos tropeiros
​​

Postagens mais visitadas deste blog

Se Eu Fosse Eu (Clarice Lispector)

A Crônica “ Se Eu Fosse Eu ” de Clarice Lispector foi publicada em 30 de novembro de 1968 pelo Jornal do Brasil. Esta e outras cronicas podem ser encontradas no livro A descoberta do Mundo , que reúne as crônicas que ela escreveu para o Jornal do Brasil no período de 1967 a 1973. SE EU FOSSE EU “Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se e

Erro de português (Oswald de Andrade)

O Descobrimento do Brasil por Cândido Portinari Erro de português Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português — Oswald de Andrade

MAR PORTUGUÊS (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Pintura a óleo de Carlos Alberto Santos Poema extraído de Mensagem de Fernando Pessoa. Disponível para download em Domínio Público . Leia outros poemas de Fernando Pessoa Todas as Cartas de Amor são Ridículas Agora que sinto amor Sou um guardador de rebanhos Liberdade