Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2012

A Prisão de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato Monteiro Lobato foi preso por Getúlio Vargas em 1941, durante a ditadura do Estado Novo. Em Janeiro de 1935, Monteiro Lobato escreveu uma carta endereçada ao próprio Getúlio Vargas denunciando o Conselho Nacional de Petróleo de agir em favor de interesses estrangeiros. O assunto é extremamente sério e faz jus ao exame sereno do Presidente da República, pois que as nossas melhores jazidas de minérios já caíram em mãos estrangeiras e no passo em que as coisas vão o mesmo se dará com as terras potencialmente petrolíferas. E já hoje ninguém poderá negar isso visto que tenho uma carta em que o chefe dos serviços geológicos da Standard ingenuamente confessa tudo, e declara que a intenção dessa companhia é manter o Brasil em estado de "escravização petrolífera". (Monteiro Lobato)  Trecho da carta endereçada a Getúlio Vargas.

Veja Bem, Meu Bem (Marcelo Camelo)

Veja bem, meu bem Sinto te informar que arranjei alguém pra me confortar. Este alguém está quando você sai E eu só posso crer, pois sem ter você nestes braços tais. Veja bem, amor. Onde está você? Somos no papel, mas não no viver. Viajar sem mim, me deixar assim. Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins. Enquanto isso, navegando vou sem paz. Sem ter um porto, quase morto, sem um cais. E eu nunca vou te esquecer amor, Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz. Veja bem além destes fatos vis. Saiba, traições são bem mais sutis. Se eu te troquei não foi por maldade. Amor, veja bem, arranjei alguém chamado "Saudade'. ​Ouça também ... Outra vez Falando de amor ​Metade ​ Seu nome

Aceitarás o amor como eu o encaro ?... (Mário de Andrade)

Paul-César Helleu 1859-1927, Nue allongée sur un canapé  Aceitarás o amor como eu o encaro ?... ...Azul bem leve, um nimbo, suavemente Guarda-te a imagem, como um anteparo Contra estes móveis de banal presente. Tudo o que há de melhor e de mais raro Vive em teu corpo nu de adolescente, A perna assim jogada e o braço, o claro Olhar preso no meu, perdidamente. Não exijas mais nada. Não desejo Também mais nada, só te olhar, enquanto A realidade é simples, e isto apenas. Que grandeza... a evasão total do pejo Que nasce das imperfeições. O encanto Que nasce das adorações serenas.

ROSA DE HOROSHIMA (Vinicius de Moraes)

Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas, oh, não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa, sem nada

Poema só para Jaime Ovalle (Manuel Bandeira)

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando... - Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

POEMA DE SETE FACES (Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada.

Romance XIX ou dos maus presságios (Cecília Meireles)

Zezé Motta em filme Xica da Silva Acabou-se aquele tempo do Contratador Fernandes. Onde estais, Chica da Silva, cravejada de brilhantes? Não tinha Santa Ifigênia, pedras tão bem lapidadas, por lapidários de Flandres... Sobre o tempo vem mais tempo, Mandam sempre os que são grandes: e é grandeza de ministros roubar hoje como dantes. Vão-se as minas nos navios... Pela terra despojada, ficam lágrimas e sangue. Ai, quem se opusera ao tempo, se houvesse força bastante para impedir a desgraça que aumenta de instante a instante! Tristes donzelas sem dote choram noivos impossíveis, em sonhos fora do alcance. Mas é direção do tempo... E a vida, em severos lances, empobrece a quem trabalha e enriquece os arrogantes fidalgos e flibusteiros que reinam mais que a Rainha por estas minas distantes! Veja também outros poemas de Cecília Meireles ... Retrato E o meu caminho começa ... ​Romance VII ou do negro das Catas ​Romance XXX ou do riso dos tropeiros ​

Segunda impaciencia do poeta (Gregório de Matos)

Cresce o desejo, falta o sofrimento, Sofrendo morro, morro desejando, Por uma, e outra parte estou penando Sem poder dar alívio a meu tormento. Se quero declarar meu pensamento, Está-me um gesto grave acobardando, E tenho por melhor morrer calando, Que fiar-me de um néscio atrevimento.

Verdade (Carlos Drummond de Andrade)

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Aceitarás o amor como eu o encaro ?... (Mário de Andrade)

Aceitarás o amor como eu o encaro ?... ...Azul bem leve, um nimbo, suavemente Guarda-te a imagem, como um anteparo Contra estes móveis de banal presente. Tudo o que há de melhor e de mais raro Vive em teu corpo nu de adolescente, A perna assim jogada e o braço, o claro Olhar preso no meu, perdidamente. Não exijas mais nada. Não desejo Também mais nada, só te olhar, enquanto A realidade é simples, e isto apenas. Que grandeza... a evasão total do pejo Que nasce das imperfeições. O encanto Que nasce das adorações serenas. Fonte:  lusofoniapoetica Mário Raul de Morais de Andrade, Mário de Andrade (SP-9-10-1893 - 25-02-1945), foi escritor, poeta, crítico de arte, musicólogo e ensaísta  Foi uma das figuras mais importantes para o modernismo brasileiro, junto com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e outros, com participação fundamental na Semana de Arte Moderna de 1922 . É o autor de Macunaíma e Paulicéia Desvairada .

HINO À DOR (Augusto dos Anjos)

Dor, saúde dos seres que se fanam, Riqueza da alma, psíquico tesouro, Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam... És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Com os corpúsculos mágicos do tato Prendo a orquestra de chamas que executas... E, assim, sem convulsão que me alvorece, Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! Poema extraído de 'Eu e Outras Poesias', de Augusto dos Anjos. Obra completa disponível para download em Domínio Público (Eu e outras Poesias) . Leia também ... SONETO O morcego Versos Íntimos Psicologia de um vencido

Seu Nome (Vander Lee)

Quando essa boca disser o seu nome venha voando Mesmo que a boca só diga seu nome de vez em quando Posso enxergar no seu rosto um dia tão claro e luminoso Quero provar desse gosto ainda tão raro e misterioso... Do Amor Quero que você me dê o que tiver de bom pra dar Ficar junto de você é como ouvir o som do mar Se você não vem me amar a maré cheia amor Ter você é ver o sol deitado na areia Quanto quiser entrar e encontrar o trinco trancado Saiba que meu coração é um barraco de zinco todo cuidado Não traga tempestade depois que o sol se por Nem venha com piedade porque piedade não é amor ​Ouça também ... Outra vez Falando de amor ​ As rosas não falam ​​ ​Suíte do pescador ​

A MÁSCARA (Augusto dos Anjos)

Mascaras Eu sei que há muito pranto na existência, Dores que ferem corações de pedra, E onde a vida borbulha e o sangue medra, Aí existe a mágua em sua essência. No delírio, porém, da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente.

Presságio (Fernando Pessoa)

O AMOR, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente... Cala: parece esquecer...

Liberdade (Fernando Pessoa)

Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não fazer ! Ler é maçada, Estudar é nada. Sol doira Sem literatura O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como o tempo não tem pressa...

Amar (Carlos Drummond de Andrade)

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Em face dos últimos acontecimentos (Drummond)

Oh! Sejamos pornográficos (docemente pornográficos). Por que seremos mais castos Que o nosso avô português? Oh! sejamos navegantes Bandeirantes e guerreiros Sejamos tudo que quiserem Sobretudo pornográficos. A tarde pode ser triste E as mulheres podem doer Como dói um soco no olho (pornográficos, pornográficos). Teus amigos estão sorrindo De tua última resolução. Pensavam que o suicídio Fosse a última resolução. Não compreendem, coitados, Que o melhor é ser pornográfico. Propõe isso a teu vizinho, Ao condutor do teu bonde, A todas as criaturas Que são inúteis e existem, Propõe ao homem de óculos E à mulher da trouxa de roupa. Dize a todos: Meus irmãos, Não quereis ser pornográficos? (Carlos Drummond de Andrade) Leia outros poemas de Drummond ... Procura da poesia Certas palavras Consolo na praia Resíduo

Não sei Dançar (Manuel Bandeira)

Ilustração de Ricardo Allonso Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. Tenho todos os motivos menos um de ser triste. Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria... Abaixo Amiel! E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff. Sim, já perdi pai, mãe, irmãos. Perdi a saúde também. É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band. Uns tomam éter, outros cocaína. Eu tomo alegria! Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda. Mistura muito excelente de chás... Esta foi açafata...

Os Cegos Do Castelo (Nando Reis)

Eu não quero mais mentir Usar espinhos que só causam dor Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu Dos cegos do castelo me despeço e vou A pé até encontrar Um caminho, o lugar Pro que eu sou Eu não quero mais dormir De olhos abertos me esquenta o sol Eu não espero que um revólver venha explodir Na minha testa se anunciou A pé a fé devagar Foge o destino do azar Que restou

Todas as Cartas de Amor são Ridículas (Fernando Pessoa)

Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas. A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.) Álvaro de Campos - (heterônimo de Fernando Pessoa) Leia outros poemas de Fernando Pessoa Poema em linha reta Tão cedo passa tudo quanto passa! Agora que sinto amor Mar Português

Um Apólogo (Machado de Assis)

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha: — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo? — Deixe-me, senhora. — Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça. — Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros. — Mas você é orgulhosa. — Decerto que sou.

OLHOS DE RESSACA -- de 'Dom Casmurro' (Machado da Assis)

Capítulo XXXII Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Caso houve, porém, no qual não sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as coisas, como eu. É o que contarei no outro capítulo. Neste direi somente que, passados alguns dias do ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manhã. D. Fortunata, que estava no quintal, nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha. — Está na sala, penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe pregar um susto. Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre as duas janelas. Senão foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:

EU OUÇO MÚSICA (Mario Quintana)

Eu ouço música como quem apanha chuva: resignado e triste de saber que existe um mundo do Outro Mundo... Eu ouço música como quem está morto e sente já um profundo desconforto de me verem ainda neste mundo de cá...

Roda Viva (Chico Buarque)

Tem dias que a gente se sente Como quem partiu ou morreu A gente estancou de repente Ou foi o mundo então que cresceu... A gente quer ter voz ativa No nosso destino mandar Mas eis que chega a roda viva E carrega o destino prá lá ...

O MORCEGO (Augusto dos Anjos)

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica dasede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. “Vou mandar levantar outra parede...” -- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh’alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! Poema extraído de 'Eu e Outras Poesias', de Augusto dos Anjos. Obra completa disponível para download em Domínio Público (Eu e outras Poesias) . Leia também ... Versos Íntimos Psicologia de um vencido A IDÉIA A MÁSCARA

Outra vez (Isolda Bourdot)

Você foi... O maior dos meus casos De todos os abraços O que eu nunca esqueci Você foi... Dos amores que eu tive O mais complicado E o mais simples pra mim Você foi... O melhor dos meus erros A mais estranha história Que alguém já escreveu E é por essas e outras Que a minha saudade Faz lembrar De tudo outra vez. Você foi... A mentira sincera Brincadeira mais séria Que me aconteceu Você foi... O caso mais antigo E o amor mais amigo Que me apareceu Das lembranças Que eu trago na vida Você é a saudade Que eu gosto de ter Só assim! Sinto você bem perto de mim Outra vez... Me esqueci! De tentar te esquecer Resolvi! Te querer, por querer Decidi te lembrar Quantas vezes Eu tenha vontade Sem nada perder... Ah! Você foi! Toda a felicidade Você foi a maldade Que só me fez bem Você foi! O melhor dos meus planos E o maior dos enganos Que eu pude fazer... Das lembranças Que eu trago na vida Você é a saudade Que eu gosto de ter Só assim! Sint

Aquarela (Toquinho/Vinicius de Moraes)

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Amar (Drummond)

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Soneto (Gregorio de Matos)

A cada canto um grande conselheiro, Que nos quer governar cabana, e vinha, Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um freqüentado olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, Para a levar à Praça, e ao Terreiro. Muitos Mulatos desavergonhados, Trazidos pelos pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia. Estupendas usuras nos mercados, Todos, os que não furtam, muito pobres, E eis aqui a cidade da Bahia.

Pica-Flor

Se Pica-Flor me chamais, Pica-Flor aceito ser, Mas resta agora saber, Se no nome que me dais, Meteia a flor que guardais No passarinho melhor! Se me dais este favor, Sendo só de mim o Pica, E o mais vosso, claro fica, Que fico então Pica-Flor. Pica-Flor é um poema de Gregório de Matos Guerra em resposta a uma freira, satirizando-a por ter lhe atribuído o nome de 'Pica-flor', em razão de sua aparência, que lembra o pássaro.

Onde Anda Você (Vinicius de Moraes)

E por falar em saudade Onde anda você Onde andam os seus olhos Que a gente não vê Onde anda esse corpo Que me deixou morto De tanto prazer E por falar em beleza Onde anda a canção Que se ouvia na noite Dos bares de então Onde a gente ficava Onde a gente se amava Em total solidão Hoje eu saio na noite vazia Numa boemia sem razão de ser Na rotina dos bares Que apesar dos pesares Me trazem você E por falar em paixão Em razão de viver Você bem que podia me aparecer Nesses mesmos lugares Na noite, nos bares Onde anda você Veja também outros poemas de Vinicius de Moraes ...  A hora íntima  Dialética Soneto da Fidelidade  Soneto da Hora Final

Memória (Drummond)

Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. Leia outros poemas de Drummond ... Resíduo ​No meio do caminho Congresso internacional do medo Em face dos últimos acontecimentos Mãos Dadas

A Idéia (Augusto dos Anjos)

De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas, Que, em desintegrações maravilhosas, Delibera, e depois, quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe, Chega em seguida às cordas da laringe, Tísica, tênue, mínima, raquítica... Quebra a força centrípeta que a amarra, Mas, de repente, e quase morta, esbarra No molambo da língua paralítica! Poema extraído de 'Eu e Outras Poesias', de Augusto dos Anjos. Obra completa disponível para download em Domínio Público (Eu e outras Poesias) .

CAPÍTULO 55- O velho diálogo de Adão e Eva

Filme Memórias Póstumas BRÁS CUBAS................................? VIRGÍLIA............................... BRÁS CUBAS....................................................................................... ......... ........................................................ VIRGÍLIA..........................................! BRÁS CUBAS................................. VIRGÍLIA.................................................................................... ......................................................................? .................................................. ....................................................... BRÁS CUBAS................................. VIRGÍLIA............................................... BRÁS CUBAS....................................................................................... ....... ............................. ..........!..............................!...........................! VIRGÍ

Teoria do Medalhão (Machado de Assis)

Diálogo — Estás com sono? — Não, senhor. — Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são? — Onze. — Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros... — Papai... — Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos

Suje-se gordo! (Machado de Assis)

UMA NOITE, há muitos anos, passeava eu com um amigo no terraço do Teatro de São Pedro de Alcântara. Era entre o segundo e o terceiro ato da peça A Sentença ou o Tribunal do Júri. Só me ficou o título, e foi justamente o título que nos levou a falar da instituição e de um fato que nunca mais me esqueceu. — Fui sempre contrário ao júri, — disse-me aquele amigo, — não pela instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condenar alguém, e por aquele preceito do Evangelho; "Não queirais julgar para que não sejais julgados". Não obstante, servi duas vezes. O tribunal era então no antigo Aljube, fim da Rua dos Ourives, princípio da Ladeira da Conceição. Tal era o meu escrúpulo que, salvo dois, absolvi todos os réus. Com efeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dois processos eram mal feitos. O primeiro réu que condenei, era um moço limpo, acusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes pequena, com falsificação de um papel. Não negou o fato, ne

Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto)

Os retirantes (Cândido Portinari) — O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacariase que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usam