28 de fev de 2017

Poemas Escolhidos (Mia Couto)

Mia Couto (ou António Emílio Leite Couto) é um biólogo, jornalista e escritor de Moçambique, membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Ele destacou-se tanto na prosa como na poesia e já coleciona uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013 e o Neustadt International Prize de 2014

Um dos juris do Prêmio Camões (Lusa J. C. Vasconcelos) justificou a escolha de Mia Couto da seguinte forma:
"Ao longo de 30 anos de publicação, ele construiu uma vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e profunda humanidade, o que tem sabido renovar na sua produção" (Lusa J. C. Vasconcelos)
O seu primeiro romance Terra sonâmbula (2007) foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri especial criado pela Feira do Livro do Zimbábue. Este já foi adicionado à minha meta de Leituras de 2017

Mia Couto ao lado de nomes como Chimamanda Adichie e Ondjaki fazem parte de uma nova geração de escritores africanos com ampla projeção internacional. Em uma entrevista à Revista de História, quando indagado sobre a recente projeção internacional da Literatura Africana ele responde:  
RH – Essa nova geração de africanos indica que o mundo está descobrindo uma literatura que antes era ignorada, ou de fato há uma geração privilegiada de grandes nomes surgindo?
Mia Couto ❝ As duas coisas. Eu acho que a primeira literatura africana era de grande qualidade, mas era uma literatura muito marcada, muito datada. Era uma literatura de afirmação, e eu acho que agora os escritores novos africanos estão mais empenhados em serem escritores, independentemente da identificação africana. Muitos moram fora da África. Como essa escritora, Chimamanda Adichie, que é para mim uma das grandes vozes da África hoje. A impressão é de que esses escritores querem ficar mais livres; proclamarem-se africanos deu-lhes mais liberdade. Por outro lado, eu acho que o resto do mundo tem se interessado mais pela África. O Brasil, por exemplo, está se reencontrando melhor com aquele seu lado africano, conhecendo o que está dentro e o que está fora do Brasil. Portanto, acho que estas são as duas coisas que estão acontecendo. ❞ 

Recentemente li o livro Poemas Escolhidos, um livro de poemas selecionados por Mia Couto. Esse foi o primeiro livro que eu li do autor, e será, certamente, o primeiro de muitos. Eu amo poesia, embora eu conheça e leia muitos outros autores, eu acabo quase sempre me apaixonando por alguns poemas e sendo indiferente aos muitos outros, lendo Mia Couto eu tive uma identificação imediata com o livro do começo ao fim, acredito que não apenas pela poesia em si, bastante sensível e humana, mas também pela sua linguagem nova, diferente do que eu estava habituada.


Mia Couto
Poemas Escolhidos - Mia Couto 

A seguir leia três poemas extraídos do livro Poemas Escolhidos: 


O Brinde


Ergueu o cálice
e esqueceu o brinde.

No avô,
suspendeu a família o ansioso olhar,
mas palavra e gesto lhe quedaram imóveis,
morcegos presos
no último teto do mundo.

Parecia que iria ficar assim
o resto da vida:
à espera de um motivo para brindar.
E nessa espera
demoraria o tempo todo.

Quando já morto,
tentassem tirar-lhe o cálice,
não seria possível abrir-lhe os dedos.
Levaram o avô
para o quarto,
e deixaram-no só, no escuro,
para que adormecesse.

O avô está cansado, disseram.
E, deste modo,
a si mesmos se descansaram.
O velho sorriu,
em seu enrugado rosto
desenhou a taça da malícia:
o que ele queria
era o instante do tempo inteiro.

Não entenderam os parentes:
calado, ele não estava calado.
A sua palavra
de nenhuma voz carecia.

De si para si, murmurou:
só amei o que tinha fim
e tudo que amei se eternizou.

Depois, adormeceu.

Aos parentes,
para sempre escapou
a razão do suspenso brinde.

Ninguém sabe falar a quem ama.

Apenas no silêncio
o amor
se diz e escuta.


Falta de Reza


Por insuficiência de reza,
por falsidade de crença
meu anjo me culpou
e vaticinou eterna penitência.

Mas não ajoelho
nem peço desculpa.
Não quero um deus
que vigie os vivos
e peça contas aos mortos.

Um deus amigo
que me chame por tu
e que espere por mim
para um copo de riso e abraços:
esse é o deus que eu quero ter.

Um deus
que nem precise de existir.


Poema de Despedida 


Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal, 
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora 
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

(Mia Couto)



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