24 de jan de 2017

Pesadelo

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

(Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro)




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Outra vez

Falando de amor

Jõao e Maria

​​​Suíte do pescador

23 de jan de 2017

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI (Eduardo Alves da Costa)

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.


Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

20 de jan de 2017

Ora (direis) ouvir estrelas!

Constelação em Arte Stellarium

XII

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
Saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera! que eu te sigo:
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
"Como és feliz! como és feliz, amigo,
Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"

XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

(...)


5 de jan de 2017

Memorial de Maria Moura (Rachel de Queiroz)

Desafio Mulheres da ABL


Aos 82 anos Rachel de Queiroz publica Memorial de Maria Moura, considerada a obra-prima da autora. O romance apresenta a saga de uma mulher no sertão nordestino contra a submissão feminina na sociedade do século XIX.

Amei ler Memorial de Maria Moura, sempre tive curiosidade de ler o livro depois de assistir a uma minissérie (1998) baseada nessa obra. A minissérie foi um grande sucesso de audiência e alavancou a venda do romance de Rachel de Queiroz.

Imagem de Minissérie Memorial de Maria Moura 

A leitura do romance me causou uma certa estranheza por dois motivos, o primeiro é: Maria Moura vira uma fora da lei, mas ao mesmo tempo que você torce por ela você se sente mal por esperar dela uma moralidade superior. Mas de certa forma (nesse meio) ela tem sim uma moralidade superior. Um exemplo disso é não aceitar escravos como ainda era comum na época, tornando livres todos aqueles que desejassem seguir seu bando.


“Pois eu nunca andei com cativo. A morte da gente é a alforria deles. Se eu tenho algum negro bom ao meu serviço, alforrio primeiro. Dizia meu pai: “Se perde um escravo e se ganha um amigo”. Ficou sendo essa a minha lei. ” 
(Trecho de Memorial de Maria Moura, 1992)


O segundo motivo é: Ela é uma personagem muito forte mas ao mesmo tempo ela tem momentos de fraqueza num relacionamento que quase a destrói, é inicialmente muito decepcionante pois você acaba esquecendo que ela é humana e passível a cometer erros também, por fim, isso apenas enriquece a obra.