31 de mai de 2015

Sinto que o mês presente me assassina


Mário Faustino
Foto: Cia. de Bolso


Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina

24 de mai de 2015

A ponto de partir (Ana Cristina Cesar)

A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.




Ana Cristina Cesar





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Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos

​Contagem regressiva

21 de mai de 2015

Vita nuova (Olavo Bilac)

Vita Nouva - Olavo Bilac
The Kiss, por Gustav Klimt, 1907-1908

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!

Não me fales das lágrimas perdidas,
Não me fales dos beijos dissipados!
Há numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas

(Mário Quintana)

Poema extraído do livro Espelho Mágico de Mário Quintana, publicado em 1951.

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Capa do livro Espelho Mágico 

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Eu ouço a música

O pobre Poema

Se eu fosse um padre

O silêncio

15 de mai de 2015

Congresso Internacional do Medo (Drummond)

Fear, Oil painting
Pintura de Ljuba Adanja 2002


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


12 de mai de 2015

DESAFIO : Mulheres na Academia Brasileira de Letras

A Academia Brasileira de Letras (ABL) é a instituição cultural máxima para a divulgação da língua e da cultura brasileira. Ela foi fundada em 1897 por iniciativa de homens geniais, como o escritor Machado de Assis. Infelizmente até hoje, mesmo num país cuja maioria da população é feminina, cujas mulheres têm mais educação formal que os homens e são leitoras mais vorazes, a ABL continua um privilégio quase exclusivamente masculino.

A ABL é constituída por 40 membros, chamados imortais, e 10 correspondentes estrangeiros. Ao todo, 288 intelectuais já foram consagrados como imortais, desses apenas 8 eram mulheres, ou seja, cerca de 3% dos membros, num país em que elas são 51,3% da população.

Essas escritoras são:

1. Ana Maria Machado;
2. Dinah Silveira de Queiroz;
3. Nélida Piñon;
4. Rachel de Queiroz (apesar do mesmo sobrenome não é parente da Dinah);
5. Zélia Gattai;
6. Lygia Fagundes Telles;
7. Rosiska Darcy de Oliveira;
8. Cleonice Bernardinelli.

Sim, se você sentiu falta de Clarice Lispector, Cecília Meireles, Hilda Hilts e algumas outras grandes escritoras, por favor, compartilhe com a gente.

Em homenagem a estas heroínas, nós do Blog Literatura Brasileira e do Blog 500 Livros estamos lançando o Desafio Mulheres da ABL, que é ler pelo menos um livro de cada escritora e fazer uma postagem sobre ela e sua obra.

Aceita o desafio também?

Autor: Isotilia Melo


Escritoras, Mulheres na ABL
1. Ana M. Machado 2. Cleonice Bernardinelli3. Dinah S. de Queiroz; 4. Lygia Fagundes Telles; 5. Nélida Piñon ; 6. Rachel de Queiroz; 7. Rosiska Darcy de Oliveira; 8. Zélia Gattai.

















***** Confira os livros que já foram lidos: (sessão a ser atualizada a cada nova etapa concluída)


O Quinze - Rachel de Queiroz

O Baile de Máscaras - Rosiska Darcy de Oliveira

Tropical Sol da Liberdade - Ana Maria Machado

Memorial de Maria Moura - Rachel de Queiroz

O pão de cada dia - Nélida Piñon

Ciranda de Pedra - Lygia Fagundes Telles

Anarquistas graças a Deus! - Zélia Gattai

Daniela e os Invasores - Dinah Silveira de Queiroz


6 de mai de 2015

“— Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. “— Coragem para a luta.”

O Ateneu é o romance mais conhecido do escritor Raul Pompeia (1863-1895). É uma prosa poética, contada em primeira pessoa pelo menino Sérgio, sobre sua a traumática formação dentro de um internato privado no Rio de Janeiro (o Ateneu). 

A sociedade da época reprimia afetividade e ternura do homens (não tão distante dos dias atuais) de forma que as relações entre homens e mulheres e mesmo as relações entre homens era bastante prejudicada. Se de algum modo o homem vivenciar ternura por outro homem, o mesmo será então tachado de homossexual, ''mariquinhas''. O que, na época, era uma grande desonra pública. 

Em o Ateneu, Sérgio descreve o amigo Egbert com bastante afetividade, de uma maneira fraternal. Como ilustrado no seguinte trecho do livro:

❝Egbert merecia-me ternuras de irmão mais velho. Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa, tinha os cabelos castanhos entremeados de louro, uma alteração exótica na pronúncia, olhos azuis de estrias cinzentas, oblíquos, pálpebras negligentes, quase a fechar, que se rasgavam, entretanto, a momentos de conversa, em desenho gracioso e largo. Vizinhos ao dormitório, eu, deitado, esperava que ele dormisse para vê-lo dormir e acordava mais cedo para vê-lo acordar. Tudo que nos pertencia, era comum. Eu por mim positivamente adorava-o e o julgava perfeito. Era elegante, destro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração, até a cor da pele e à correção das formas.❞

A obra foi publicada no jornal "Gazeta de Notícias" em 1888. Raul Pompeia foi um jornalismo politico defensor das causas abolicionista e republicana. Envolveu-se em várias disputas políticas e viu sua obra voltar-se contra ele mesmo pelas suspeitas de sua sexualidade. Suicidou-se com um tiro no coração em 1895 deixando um bilhete com a seguinte nota de despedidas:



3 de mai de 2015

Parte IV: Visconde de Taunay, um escritor feminista!

Também se destacam as seguintes obras de Taunay: Ouro Sobre Azul (1875), Manuscritos de uma Mulher (1873), O Encilhamento: Cenas contemporâneas da Bolsa do Rio de Janeiro em 1890,1891 e 1892 (1893).

 Ouro sobre Azul é um romance ambientado no Rio de Janeiro e dirigido ao grande público. A expressão “Mas isso é ouro sobre azul” significa “mas isso é excelente, ótimo, melhor impossível”. Descobri lendo o livro, depois ouvi um colega português usando-a no meu trabalho. Imagino que fosse uma expressão comum na época. O interessante é que uma das personagens principais é uma viúva independente (a única forma de uma mulher ser independente na época!) e ela se dá muito bem em toda história. Subentende-se uma admiração do autor pela figura da mulher independente.

Eu me orgulho de ter a primeira edição do livro Manuscritos de uma Mulher. Ainda não li, pretendo ler este ano e postar no blog. Mas os primeiros dois parágrafos do livro já dizem muito:

Hoje estou casada e irremediavelmente infeliz escrevo estas páginas. Cerro os olhos ao futuro e volvo-os para o passado a fim de me esquecer do presente.”
 “Para mim não pode haver mais alegrias, esperanças, nem sonhos. Uma só palavra resume a minha imensa desgraça – casada – casada com um ente que por acaso encontrei e com quem a sina me ligou; casada e não com o homem para quem Deus me havia destinado.