18 de jul de 2014

A Escravidão (Tobias Barreto)

Se Deus é quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama a escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Se não lhe importa o escravo
Que a seus pés queixas deponha,
Cobrindo assim de vergonha
A face dos anjos seus,
Em seu delírio inefável,
Praticando a caridade,
Nesta hora a mocidade
Corrige o erro de Deus!...

Tobias Barreto

17 de jul de 2014

Desejo (Hora do Delírio) - Junqueira Freire

O Peregrino Sobre o Mar de Névoas.
Pintura: Caspar David Friedrich


Se além dos mundos esse inferno existe,
Essa pátria de horrores,
Onde habitam os tétricos tormentos,
As inefáveis dores;

Se ali se sente o que jamais na vida
O desespero inspira:
Se o suplício maior, que a mente finge,
A mente ali respira;

Se é de compacta, de infinita brasa
O solo que se pisa:
Se é fogo, e fumo, e súlfur, e terrores
Tudo que ali se visa;

15 de jul de 2014

MAR PORTUGUÊS (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Mar português
Pintura a óleo de Carlos Alberto Santos

Poema extraído de Mensagem de Fernando Pessoa. Disponível para download em Domínio Público.


Leia outros poemas de Fernando Pessoa

Todas as Cartas de Amor são Ridículas

Agora que sinto amor

Sou um guardador de rebanhos

Liberdade


UM (José Neres)

Mais de mil sonetos falam de amor,
Dez mil idolatram a solidão,
Mas estes meus têm outro sabor,
Sabor de fome medo e podridão.

Os meus versos dão muito mais valor
Às lágrimas suadas pela mão
De um pobre e sofrido trabalhador
Que às gotas perfumadas da paixão

Eu não posso cantar sobre uma flor
Se, no mesmo jardim, no mesmo chão,
O que mais brota é dor e aflição

Eu, como posso escrever sobre amor
Se neste momento co’exatidão
Um irmão, sem pena, mata a outro irmão.

Negra Rosa & Outros Poemas


Poema extraído de Negra Rosa & Outros Poemas - José Neres Obra disponível em Domínio Público.

14 de jul de 2014

A UM MENINO DE RUA (José Neres)

Menininho triste
Triste de tanto sofrer
Será que nunca viste
O sol cedo nascer?

Garoto cor de neve
De neve negra e quente
A alguém você deve
A tristeza de ser gente.

Menino que passa fome
Fome de saber
Aprende a ler teu nome
Para nunca dele esquecer.

http://obomsamaritano.com.br/de-menino-de-rua-a-microempresario/#lightbox[auto_group1]/3/
Menino de Rua


Poema extraído de Negra Rosa & Outros Poemas - José Neres Obra disponível em Domínio Público.