25 de abr de 2013

NÃO COMEREI DA ALFACE A VERDE PÉTALA (Vinicius de Moraes)


Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.

24 de abr de 2013

Como inútil taça cheia (Fernando Pessoa)

Como inútil taça cheia
Que ninguém ergue da mesa,
Transborda de dor alheia
Meu coração sem tristeza.
Sonhos de mágoa figura
Só para Ter que sentir
E assim não tem a amargura
Que se temeu a fingir.

Ficção num palco sem tábuas
Vestida de papel seda
Mima uma dança de mágoas
Para que nada suceda.



22 de abr de 2013

Valsinha (Chico Buarque e Vinicius de Moraes)

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar


E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar


E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz.





Ouça também ...  ♪ ♫ ♩ ♫   ♬ ♪ ♫


Falando de amor

Jõao e Maria

​​​Suíte do pescador

Os cegos do castelo

Funeral de um lavrador (Chico Buarque)






TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE  DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O   LEVARAM AO CEMITÉRIO

—— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
—— é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
—— Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
—— é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
—— é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
—— é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Trecho de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto.


Mais sobre a obra ...

Morte e Vida Severina em Desenho Animado

E-book Morte e Vida Severina em Biblioteca Digital PUC Campinas

18 de abr de 2013

Morte e Vida Severina - Em Desenho Animado

O obra-prima de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, foi adaptada para desenho animado pelo cartunista Miguel Falcão. A animação foi feita preservando o texto original da obra. Assista abaixo à animação completa:





O desenho narra a dura caminhada de Severino, um retirante nordestino, que migra do sertão para o litoral pernambucano em busca de uma vida melhor.

 Desde que estou retirando 
só a morte vejo ativa, 
só a morte deparei 
e às vezes até festiva 
só a morte tem encontrado 
quem pensava encontrar vida, 
e o pouco que não foi morte 
foi de vida severina 
(aquela vida que é menos 
vivida que defendida, 
e é ainda mais severina 
para o homem que retira). 



Trecho de Morte e Vida Severina

14 de abr de 2013

SONETO DA HORA FINAL (Vinicius de Moraes)

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo
E tu, tranqüila, me dirás: – Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte

Fonte: Eden

12 de abr de 2013

O VERBO NO INFINITO (Vinicius de Moraes)


Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

4 de abr de 2013

Pensamentos extraídos do livro "Do Caderno H" (Mário Quintana)

Mário Quintana

A ARTE DE LER

O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

VENERAÇÃO

Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.

A COISA

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

CARTAZ PARA UMA FEIRA DO LIVRO

Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.



Pensamentos extraídos do livro Do Caderno H de Mário Quintana.



Outros poemas de Mário Quintana ..

Eu ouço a música

Poema

Bilhete

A viagem

O descobridor

3 de abr de 2013

Se eu fosse um padre (Mário Quintana)

Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,